De longe é imagem, de perto é pessoa.
Em 2010 fotografei uma parede no Centro de São Paulo, a parede de uma copiadora. Alguém tinha colado ali dezenas de rostos, uns sobre os outros — alguns rostos, nem tudo o que nos representa enquanto povo. Rosto virado imagem reproduzida em escala. E o meu olhar procurando pessoas ali dentro, aprendendo com a história de cada uma o que seria um olhar psi que se aplicasse à clínica.
Na calçada passavam pessoas. Rostos abrindo e fechando para o esbarrar de olhos, afetos e afetações sem nome, o ambiente construindo suas formas de manutenção de uma cidade andante.
A fotografia ficou guardada quinze anos. Esta campanha inteira saiu dela.
andar psi
Psicoterapia feita andando pela cidade. Peripatética, no sentido antigo da palavra: pensar em movimento, com o corpo inteiro dentro do que se pensa.
Caminhar é automático, acontece fora da consciência. É aí que a análise encontra outro chão, sobreposta ao passo.
O lugar público entra como parte do trabalho: a chuva que comprime o tempo, a bola que vem da quadra, o cachorro, a criança, o ruído das máquinas, vozes dissonantes. A máquina cidade opera o tempo todo, e a pergunta que se anda junto é como não ser tomado por ela — que cuidados se exercita para atravessá-la sem ser atravessado. O ruído associa. O que pareceria interferência vira dado, como escrevi em Topografia do Intervalo, quando o intervalo apareceu como o lugar onde a clínica começa.
O que se aprende andando é entender-se corpo no ambiente. Perceber que o chão entra na decisão do passo, que a cidade é interlocutora, que um corpo forma e desforma forma o tempo todo diante do que chega. Saber formar. Saber conectar. E reconhecer quando não se está conseguindo nenhuma das duas coisas.
práticas de olhar
É o exercício que se faz enquanto se anda. Muitos rostos nos acontecem e nos cruzam durante o dia. O que comunicam? O que muda? Quanto mais próximos, a imagem vira pessoa.
Reaprender a ver é notar movimento e pausa, olhar e toque, o espaço entre as palavras. É o que acontece quando a técnica sai da frente e a rua entra na conversa — a andança flutuante, a atenção que se reparte sem se dispersar.
entre•vistas
Andar é o início para formar grupo de psicoterapia.
ENTRE•VISTAS é o nome do que se forma depois: gente que andou e quer continuar vendo junto. Ver entre. Ver junto o que sozinho não se alcança. Aprender a escutar e a ver com a experiência entre outros.
O nome vem por sugestão da minha principal interlocutora e aliada no cotidiano da clínica. Guarda a entrevista, que é a forma mais antiga deste trabalho, e guarda o entre, que é onde a coisa acontece. As palavras demoram para ganhar o nome que lhes cabe.
É a mesma matéria de Colaborar: o entre-corpo, o corpar vínculos. Agora com endereço e data.
começamos entre homens
A primeira chamada é para homens que queiram andar psi. Quero grupos heterogêneos, e é para lá que isto caminha. Começar entre homens é uma escolha de partida: há um tipo de conversa que precisa primeiro de um lugar onde possa começar. Depois se abre.
como funciona
O ciclo é aberto. O grupo se forma andando e decide o próprio ritmo. Valor se conversa quando o grupo existir.
Santos — 14 de setembro, à tarde.
São Paulo — 15 de setembro, de manhã.
Ponto de encontro e horário combinados no privado, com cada pessoa. Se aparecer mais de uma no mesmo dia, já se compõe grupo — e o primeiro encontro já é o trabalho.
como escrever para mim
Este blog nasceu de correspondência e ainda se sustenta nela. Escreva contando de onde vem o interesse — a cidade onde anda, o que faz, o que te fez parar nesta página. Não precisa de currículo nem de justificativa.
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