Francisco Brennand

Estrada de terra.
Alguns quilômetros dentro da mata
para chegar a um lugar
que já começou antes.

O calor da Várzea entra pela roupa.
Cheiro de umidade e argila queimada.

Os totens sobem do espelho d’água.
A vegetação não recua —
divide o espaço.

Tijolo remendado com tijolo.
O que foi olaria
sustenta o que virou templo.

Um azulejo diz
entrada e saída.
A mesma porta.
Sair é entrar.

Barro que guarda a pressão da mão.
Fogo que fixa o gesto.
Forma que não volta atrás.

Ando devagar
porque o chão pede.

Levo terra na roupa quando saio.
Ou quando entro.


estrato clínico — entrada e saída

Fomos alguns quilômetros de estrada de terra, dentro de uma reserva, para chegar. O caminho não é acesso: é preparação. Quando a Oficina aparece, o corpo já mudou de temperatura, já trocou de ritmo, já não é o mesmo que saiu do asfalto. Chegar ali exige ter atravessado um intervalo.

Na entrada, um azulejo diz: ENTRADA E SAÍDA. A mesma porta, o mesmo aviso, os dois sentidos. Não é economia de sinalização — é a tese do lugar escrita em letra azul sobre parede de tijolo remendado. Brennand diz, num vídeo, que sair é entrar. O aviso já dizia.

Foi um motorista de aplicativo quem me contou dele primeiro. Encontrou Brennand na Oficina anos atrás, ele de macacão sujo de tinta, trabalhando; o motorista ali a passeio. Mostrou-me a foto no celular com um carinho que me surpreendeu — a intimidade de quem esteve uma vez com um homem, e guardou. Fiquei pensando que intimidade talvez seja isso mesmo: não frequência, mas a qualidade do que ficou registrado no corpo depois de um encontro.

O que se conta dele, e o que se vê nos vídeos: um corpo assentado na voz rouca de fumante. As mãos presentes na fala, dedos longos e finos, um tamborilar quase trêmulo. E a voz no ritmo desse tamborilar — não são duas coisas, é uma. Um ritmo sem urgência, que não pede para chegar a lugar nenhum.

As pernas marcaram o macacão. É roupa de quem andou muito. A barba branca escorre até o peito, como escorre em boa parte das esculturas dele — e não dá para decidir se o corpo tomou a forma da obra ou se a obra saiu com a forma do corpo. Fica indecidido. É melhor assim.

Mas o que mais me alegrou foi a lucidez. Um homem de noventa e poucos anos inteiro na atenção, o olho firme no olho de quem se aproxima, as palavras escolhidas uma a uma. E não a lucidez como resistência ao tempo — a lucidez como ocupação, como prazer de se ocupar disso. Um homem que oferece a quem chega o que lhe custou uma vida inteira construir, sem economizar. E que se sabe parte de uma ecologia maior: não o artista diante da obra, mas um corpo entre barro, fogo, mata, água e as pessoas que atravessam o lugar. Dá alegria ver que um corpo pode chegar ali.

Nada disso eu vi. Brennand morreu em 2019; estive lá em 2026. Este retrato é feito de vídeo, de fotografia, do que as pessoas da Oficina me contaram, e da presença que o lugar guarda de quem o construiu. Digo isso porque importa: é um retrato montado com restos e mediações — exatamente o método com que a Oficina foi feita, sobre as ruínas da olaria do pai.

E é aqui que isso vira clínica. O barro guarda a pressão da mão que o moldou; endurecido no fogo, o gesto fica. É o que o corpo faz com as próprias tensões: registra a força que passou por ele e a mantém em forma. A diferença é que o barro cozido não muda mais, e o corpo pode.

Dizem que os irmãos cresceram sem aprender a dançar — a família não deixava ir aos clubes da cidade. Um corpo com o aprendizado social confiscado na adolescência. E, décadas depois, as mãos dançam enquanto ele fala. As pernas andaram até marcar o macacão. Talvez a obra inteira seja isso: uma aprendizagem terminada fora do prazo, por outras vias. Todos sabemos como se dança — mas nem todos aprendem pelos pés, e nem todos no tempo certo. E o corpo, quando não pôde aprender pelos pés, escuta por outro lugar.

Saí de lá com cheiro de terra na roupa. O aviso da entrada continua valendo na volta.


vídeo

[TÍTULO DO VÍDEO], [canal], [ano]. Disponível em youtu.be/E5VkuJWVDfY. É deste vídeo que vem a formulação “sair é entrar”, citada acima.

créditos

Imagem de capa: fotografia minha, Oficina Cerâmica Francisco Brennand, Várzea, Recife, julho de 2026. O painel de azulejos fotografado é obra de Francisco Brennand (Recife, 11/06/1927 — Recife, 19/12/2019), integrante do conjunto da Oficina.

Local: Oficina Cerâmica Francisco Brennand, bairro da Várzea, Recife (PE). Erguida a partir de 1971 sobre as ruínas da Cerâmica São João da Várzea, olaria da família fechada em 1945. Jardins concebidos por Roberto Burle Marx. A maior parte das esculturas que hoje habitam o espaço foi criada entre 1975 e 1985.

Nota de método: este texto foi composto a partir de visita ao lugar, de registro em vídeo, de fotografias e de relatos de pessoas encontradas na Oficina. Não houve encontro com o artista.


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