“O corpo é a ideia que se afirma na medida mesma em que se esforça por perseverar no seu ser.”
— Benedictus de Spinoza
Começa quando coloco a roupa de ataque.
Não é metáfora. É um tecido grosso que fecha os pulsos, cobre os tornozelos, avisa o corpo que algo vai mudar. Antes da roupa, sou visita. Depois dela, sou parte do trabalho.
O machado de cabo curto pede precisão — cada golpe na raiz é uma pergunta com resposta imediata. Corta ou não corta. Está certo ou não está. Poucas coisas respondem assim. O facão abre passagem sem destruir, aponta. A enxada puxa do chão um cheiro que não tem nome mas que o corpo reconhece antes da mente chegar.
O suor veio antes da consciência do esforço. E então veio a necessidade de fogo.
Manter o coração do fogo aceso é um manejo de atenção: escolher junto do vento por onde entra o ar, ali colocar madeira seca, não apressar, não abandonar. O fogo não obedece — ele responde. É uma das poucas coisas que devolve exatamente o que você oferece.
Mas o que o trabalho pede, antes de tudo, é olho no pequeno.
Debaixo da braquiária alta, debaixo do mato que cresceu sem direção, há árvores jovens que não chegaram à luz. Não estão mortas — estão esperando. Abrir clareira não é limpar o terreno. É escolher o que vai receber sol. É uma decisão sobre o que merece crescer.
Tem uma cachorra quase lebre que sai comigo do apartamento e chega à zona rural sem avisar que mudou de mundo. Ela não estranha — ela fareja. O asfalto tem um cheiro. A terra molhada tem outro. Entre os dois não há confusão, há trânsito.
Eu fico olhando para ela e demoro a entender que estou vendo alguma coisa sobre mim.
Farejar não é procurar. É ser arrastado pelo que já está lá — antes da decisão, antes do nome. O nariz chega antes dos olhos. O corpo se orienta antes da mente concordar. Há uma inteligência nisso que não passa pela dúvida: ela responde ao cheiro com o corpo inteiro, sem reserva, sem filtro.
O que seria viver assim —
deixar o território falar antes de perguntar se é seguro entrar?
Nos quatro dias de roça, o corpo aprendeu um ritmo que a cidade não proíbe mas também não ensina. O machado pede precisão. O fogo pede atenção. A braquiária alta esconde árvores pequenas que só precisavam de luz — e o trabalho era esse: abrir espaço para o que já estava tentando crescer.
A cachorra aprendia junto. Presa na guia durante o trabalho, farejava o raio que a corda permitia com uma concentração que me envergonhava um pouco. Cada cheiro era uma informação completa. Cada rajada de vento, uma excitação com resposta imediata.
Ela transita entre dois mundos e carrega os dois cheiros no focinho. Não escolhe um. Não lamenta o outro. Está sempre no intervalo — e é exatamente ali, nessa passagem, que ela mais vive.
Há pessoas que entendem o intervalo como espera — um espaço provisório entre dois lugares reais. Um lado de cá que já foi, um lado de lá que ainda não chegou. O intervalo como desconforto a ser resolvido.
Mas há outro modo de habitar o entre. Não como pausa entre dois mundos, mas como o mundo em si. O apartamento não cancela a roça. A roça não corrige o apartamento. Os dois cheiros coexistem no focinho, no pulmão, na memória do corpo — e essa coexistência não é confusão. É riqueza de registro. É um corpo que aprendeu mais de um ritmo e não precisa escolher apenas um para se sentir inteiro.
O intervalo não é o lugar onde se espera chegar.
É o lugar onde se respira.
Onde o corpo reconhece que carrega mais de um cheiro
e que isso não é perda —
é o que sobrou de tudo que foi vivido.
A cachorra ainda está aprendendo. Eu também. E talvez seja exatamente isso — esse aprender sem terminar, esse farejar sem concluir — que nos mantém vivos dentro da própria forma.
Talvez o farejar seja isso:
não saber para onde vai
mas saber, pelo cheiro,
que já chegou.
maio 2026 — Glauco Soto
HIPERLINKS — percurso deste texto
- Sujeitos Migrantes — trânsito, presença, território online
- Cais — território, borda, lugar de passagem
- Excitação — afeto, potência, corpo que responde
- Respirar como corpo de passagem de ar — intervalo, ritmo, continuidade
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