A despedida é um rastro
que a mão ainda desenha
no que já não habita.
Ocupar o espaço
é o corte:
limpar o território,
subir o degrau,
sustentar o risco.
Não é falta,
é escolha.
Já não sou o que faço,
sou o que decido
permanecer.
A transição é o osso
que range antes do passo.
Onde era o peso do dente,
agora é o desenho da face.
Onde era a repetição,
agora é o gesto que escolhe.
O corpo sabe o que a alma já foi:
estrangeiro no próprio ofício,
arquiteto de um novo sim.
Bom estar aqui,
saio mais forte porque fui feliz aqui,
tenho que seguir.
O horizonte agora é curadoria:
o que fica, o que vai,
o que se transmuta.
Não é fuga da lida,
é refino do toque;
é trocar o volume da carga
pela nitidez da presença.
A rede avança
no ritmo da escrita,
no corte preciso da escolha
que desenha o território
onde, enfim, posso voar.
HIPERLINK’S
Este texto não nasce do vazio, mas do resíduo de movimentos que venho tateando na rede e no território clínico:
- O Corte da Decisão: Em Escolher (fev/26), eu já falava sobre a escolha como um ato de exclusão deliberada. Aqui, a escolha deixa de ser teórica e torna-se física: o descarte do que já não cabe para que o novo “ticket” de vida possa ocupar o espaço.
- A Sustentação do Voo: A autonomia não é leveza, é gravidade escolhida. Como explorado em Autonomia (jan/26), o salto para um novo modelo de atuação exige a musculatura de quem já não busca permissão, mas afirma presença.
- A Estrangeira de si Mesma: O estranhamento com o próprio ofício remete ao sentimento de Japão para uma Brasileira (mar/22). Às vezes é preciso sentir-se estrangeiro no que é familiar para reconhecer que o território mudou e que é hora de seguir.
- A Espiral do Retorno: Tudo o que escrevo parece Circular (dez/25). Retorno ao mesmo ponto — a identidade e a prática — mas agora com a força de quem foi feliz no que passou e, por isso mesmo, tem a autoridade de se despedir para evoluir.
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