Sujeitos Migrantes

Por que a psicoterapia online é o novo território da presença?

O modelo clássico do consultório de portas fechadas, com suas paredes estáticas e poltronas fixas, é definitivamente extrapolado. Hoje, não somos mais sujeitos restritos a um único CEP ou a uma única geografia emocional; somos, em essência, sujeitos migrantes. Migramos não apenas entre cidades ou países, mas entre culturas, tecnologias, afetos e novos territórios de subjetividade que exigem de nós uma constante capacidade de reconfiguração.

Muitas vezes, a resistência à terapia online vem de uma ideia equivocada de que a “presença” depende exclusivamente da proximidade física. No entanto, na clínica que exercito, aprendi que presença não é sobre distância métrica, mas sobre organização. É entender o movimento, as pausas e o vai e vem da imigração interna que cada um de nós carrega ao tentar se estabelecer em novos contextos.

O corpo não está isolado, ele é ambiente também!

Quando fazemos uma videochamada, não estamos meramente “conversando por vídeo”. Estamos realizando aberturas no modo de entender como corpo-mente se processa no ambiente real onde a vida, de fato, acontece: na sua casa, no silêncio de um café ou na urgência de uma pausa entre os desafios do trabalho.

A videochamada funciona como uma janela para o seu mundo atual. Nela, conseguimos observar e interagir como sujeitos ambientais, exercer diferenças de espaço e tempo, anatomias de uma prática de repetição, expressar os modos pelos quais vamos nos enredando às tramas da subjetividade de forma muito mais próxima da realidade cotidiana do que o tradicional modo de atenção e cuidado. Não se trata de impor “parar a vida” para entrar numa bolha atemporal. É praticar em voz alta e usar a imagem refletida na tela para se fazer corpo no mundo enquanto ele gira.

Saber o que fazer com o que se tornou?

A ansiedade e o desconforto que muitos experimentam hoje são, frequentemente, sinais de uma inteligência corporal que ainda não foi traduzida. Quando nos sentimos desconectados, vazios ou à deriva, o processo clínico nos ajuda a entender o nosso próprio comportamento não como algo fixo, mas como uma potência de organização, uma ação efetiva sobre si e no mundo, sustentando autonomia para pensar e criar.

“O importante não é o que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós.”

A psicoterapia serve ao saber lidar com o que nos tornamos, ampliar coragem e habilidades para ziguezaguear entre as incertezas, encontrar uma expressão singular e autêntica à trajetória que percorremos.

Língua materna e território de retorno

Em qualquer lugar do planeta, a psicoterapia é o seu território de retorno. Praticamos aqui o português que habitamos no Brasil, fundamental para se visitar memórias com a fluência e o sotaque necessários para manejar anatomias e sustentar o embodiment*1. Encarnar e tornar-se pessoa é conquistar um tipo de autonomia que sustenta intensidades afetivas.

Manejar a si próprio é uma forma de reduzir sofrimentos e, sobretudo, de ampliar potências. É uma afirmação da vida que nos permite seguir adiante, com a complexidade que a nossa inevitável migração exige.


*1Embodiment: Termo da fenomenologia e psicologia corporal que se refere à “personificação” ou “encarnação”. É a experiência de habitar plenamente o próprio corpo, onde a mente e a biologia não são separadas, mas uma unidade que percebe e age no mundo.

Você busca mais presença em sua trajetória?

Agende uma conversa inicial e entenda como a clínica corporal pode auxiliar no manejo da sua trajetória.


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