Sanfona de nós e dobras

Arrastar é deixar-se contaminar pelo fluxo: colher o que vibra, largar o que endurece. Sem medo de profanar com caneta comum.(epígrafe inspirada em G!, #janela poética #2, 2025)

Encontrei um grupo pra chamar de nosso

#janela poética #2 – com G! e Nh^

Retornei com minha sanfona — caderno de uma só  folha macia, um presente generoso de G!, uma abertura às suas preciosas pesquisas encarnadas. Me desdobro como uma sanfona para fazer música com dedos, braços e fôlego.

Cada dobra um tempo: a respiração do que ainda não sabe seu nome. Só eu cheguei para a segunda edição, mas sinto os que virão — presenças sem atraso, divida ou lamento, porque já inscritas na atmosfera do encontro.

G! conduz coreografias com seu modo arrastão de pesquisa: arrasta por intuição e seleciona o que brilha ao seu olhar cirúrgico de analista. Nada escapa do seu radar sensível — pensamentos, restos, ruídos, tudo pode virar matéria se for capaz de ressoar.

Nh^ está comigo e já esta em G! — amiga de ziguezagues e começos, companheira dos tempos em que nossas vozes ensaiavam ser analistas, também. Cúmplices do gosto claro e matérico de estudarmos no corpo a continuidade da vida em nos.
“Juntus”, trabalhamos como sanfonas: respiração e música, expansão de pulmão e percepção. As palavras chegam devagar, letra a letra, como notas tentando formar um acorde.

Usamos carimbos para inscrever o que se abre nessa janela: cada letra é um sopro, um borrão degustado antes de ser palavra. Os dedos se sujam, e uma digital aparece sobre uma identidade que já não é única, porque é plural. Já somos parte de algo complexo — uma rede que respira conosco, pessoas são lembradas e apresentadas, como se estivessem sentadas a mesa.

O arrastão de pesquisa ganha um ponto novo: refina seus algoritmos de sensibilidade, aprendemos acolher o acaso como método e a síntese com linha de costura aparente. Mediamos perdas, enxergamos diferenças pelo lugar em que as pessoas sentadas a mesa exercitam suas conquistas e viabilizam existências.

Encontramos com o não-uníssono, porque não há só um som para descrever o que admiramos. É um campo de escuta partilhada, uma sinfonia lenta de pensamento que se dobra, toca, respira e se deixa ouvir.


Texto elaborado a partir da experiência em #janela poética #2, com G! e Nh^, no processo de criação da Clínica Peripatética.

Entre nós e as dobras, um arrastão: o gesto de colher o que brilha, reter o que pulsa por memória. Somos levados por janelas que já cortaram o céu de Flotilha de desejos — onde o desejo se instala como paisagem de pesquisa — e tocamos a delicadeza de Pinçar coluna de ouriço — onde pensar é exercício de tato e precisão. A travessia reencontra o fio de O que conduz, e nele escutamos a sanfona respirar: síntese, costura e pertencimento. Ecoa também o corpo inaugural de Comportamento #3, onde o olhar sobre o gesto cotidiano já ensaiava o que hoje se revela em rede — cada texto, um sopro; cada encontro, a promessa de outro compasso.


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