Corpo em Trânsito — Espoleta, Mandela e os cinco exercícios
Oficina Corpo em Trânsito — ITINERANTE, Escola de Arte e Espaço Cultural, Cunha/SP.
Facilitação: Fernanda Carvalho — dança contemporânea, yoga, centralização corpo-mente e outras caminhadas.
Na noite anterior
Assim que o farol iluminou a porteira, também revelou o focinho da Espoleta, encoberto de espinhos de ouriço. Mandela, seu irmão — da mesma idade, mas de rabo bem mais empinado — estava ileso, sem as marcas de defesa daquele pequeno ouriço que vive pra lá do bambuzal. É certo: não foi ele quem começou a treta.
Enquanto abria a porteira, os dois saltavam sobre mim, pintando minha roupa com as patas enlameadas de quem acabava de voltar do brejo. Agarrei o pescoço da Espoleta e comecei a pinçar, com todos os dedos, os espinhos que consegui alcançar. Prendi os dois e comecei o transbordo de coisas pra dentro de casa. Mandela, entre curioso e provocador, roubou minha máquina fotográfica da bolsa e mordeu — no limite de não estragar — antes de largá-la lá atrás, ao lado da irmã, ofegante e irritada com ele.
Na manhã seguinte
Acordei na sala, tentando tirar os espinhos do focinho da Espoleta a tempo de chegar à oficina. Só terminei minutos antes do começo, quando o veterinário cuidou dela. Alívio — pelo menos desta vez. Mas nada garante que Espoleta, sendo cão de roça, não se espete novamente. O ouriço quer seu território e vai se defender, sempre.
Sobre Mandela, o irmão de rabo empinado, fico entre raiva e curiosidade. E fui pra oficina.
– Boa tarde! Desculpe o atraso.
– Como eu me relaciono com minha coluna? Esta é a pergunta para começar a conversa.
Na coluna percebo a idade que tenho, e também a vergonha antiga de rebolar — o medo de expressar alegria, de abanar o rabo, serpentear. Trago em mim as durezas dos homens de coluna rígida e rabo entre as pernas. Desde a infância aprendi, como os ouriços, a manter certa distância para receber calor, temendo o espinho da aproximação.
vértebras que guardam histórias,
músculos que lembram quedas e festas,
ossos que sustentam o medo e o riso,
colunas que aprendem a dançar de novo.
Primeiro exercício — pinçar e balançar
Deitei de bruços. A colega pinçou com a ponta dos dedos as vértebras mais duras e pontiagudas. Imediatamente, as memórias da Espoleta voltaram: o focinho ferido, o arrepio, o susto.
A parte alta da coluna ouriçou — arrepiou mesmo — e a dor veio junto com culpa e desejo de reparar.
Quis sair. Mas permaneci. Acolhido, fui ficando. Aos poucos, a memória do desconforto começou a atravessar o insuportável e me mostrou o manejo: respirar, lentificar, deixar o corpo ensinar.
As respostas automáticas se dissolviam. Já não era “o que faz sempre assim”, mas o que reconhece o início de tudo — e, por isso, pode refazer. Que alívio.
espinhos que viram pele,
fuga que vira presença,
tremor que vira toque,
corpo que aprende a esperar-se.
Segundo exercício — vísceras e ondas
De barriga para cima, recebi nas mãos da colega movimentos ondulatórios sobre as vísceras.
A pressão sempre me aquece: tecidos moles, águas quentes, sangue correndo rápido.
Lembro da disciplina antiga: “peito pra fora, barriga pra dentro” — acompanhada de tapas frios na infância.
A mão da colega, porém, aquecia sem urgência. O corpo lembrava: o toque pode curar sem pressa.
Tocar as carnes, perceber o poder de amortecer o encontro — isso me trouxe conforto.
Não há espinhos nos tecidos moles. Não somos só espinhos. Somos feitos de camadas e águas.
vísceras que respiram,
mãos que devolvem temperatura,
calores que reeducam memórias,
o corpo se reconhecendo macio.
Terceiro exercício — serpentear em grupo
Embalados pela música, serpenteamos. Sem pressa.
O corpo-espinha virou corpo-rio. As ondulações e torções eram prazerosas.
As aproximações dos colegas me ensinaram semelhança: ver o outro me ajudava a não endurecer.
Dancei imitando tudo que vejo — pessoas, vídeos, cidades, culturas — com a alegria de agir em resposta à música, com gesto intencional e sotaque corporal.
colunas que viram rios,
gestos que rimam,
danças que falam,
corpos que se reconhecem pela alegria.
Quarto exercício — encostar na parede
Encostei na coluna fria e dura de cimento.
A comparação foi imediata: minha ondulação contra a retidão inerte.
A parede me reduziu potência — como fazem as instituições disciplinares, as cidades de linhas retas, as normas que endurecem o corpo.
Ser corpo na cidade de São Paulo — onde nasci — é outro post.
Mas já fica dito: a natureza viva é macia, mesmo o ouriço oferece suas partes sem espinhos ao bom encontro.
Aprendemos isso quando reconhecemos: somos todos matéria, psique e território.
durezas que delimitam,
curvas que resistem,
superfícies que aprendem a ceder,
o corpo lembrando que o mundo é poroso.
Quinto exercício — desenhar o vivido
Desenhei o vivido esparramado.
Falei da força de tocar e ser tocado.
Da alegria de dançar entre todos.
Atualizei velhas apostas: compreender-me como corpo, não objeto.
Me desenhei em espiral — um ciclo eterno de renovação, atravessando-me.
As linhas e formas elípticas, simétricas, dialogavam entre duros e macios, entre as forças que nos fazem humanos.
Aprendi que negar a conversa é negar a vida: todas as forças são vivas e precisam dialogar para criar mundos.
desenhos que respiram,
linhas que lembram,
espirais que narram,
corpos que se atualizam ao se mover.
Próximo passo — enredar-se em linguagem corporal
Escrever neste blog, nos últimos oito anos, é meu exercício de comunicação corporal.
Uma tentativa de traduzir o vivido, desviar da objetificação do corpo e afirmar a beleza dos versos sobre sentir-se pulsação.
Escrever com tato, olfato, paladar, som — traduzir a coreografia dos afetos em cada ambiente.
Ser passagem, e não bloqueio.
Pretendo fortalecer vínculos de colaboração e equidade, afirmar a vida como rede inteligente — mineral, floral, líquida, humana.
Observar o mundo à volta, contemplar, lentificar, fotografar, e trazer tudo pra dentro é a prática mais justa com o córtex e com a alma.
pinçar, pensar, pulsar,
dançar, escrever, respirar,
tudo é corpo — tudo é passagem.
Correspondente PSI — conversas sobre o corpo, o cotidiano e o cuidar de si.
Devagar, com presença.
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O texto, em forma de relato, expressa a intensidade dos momentos de descoberta do corpo e do comportamento coletivo. São lembranças profundamente marcadas em nós, como um salvamento automático no computador — mas, ao contrário da máquina, em nosso corpo nem sempre sabemos como acessar o que ficou registrado.
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Obrigado Ana pelo comentário,
Fico contente que eu tenha conseguido me comunicar a partir das intensidades, este é o meu atual exercício. Escrever sobre estas intensidades de um modo que possamos elaborar todas as nossas memórias ! inté !
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