ensaios clínicos sobre o que pulsa quando a palavra não basta
“Entre o silêncio e o sentido, há o gesto que fala.”
— Sándor Ferenczi
Senti o corpo avançar, como quem mergulha de ponta na curva da onda.
Fui embalado pela flotilha que tentou levar ajuda humanitária e não recuou.
Avançou no imaginário de que somos todos capazes de interromper o ódio frio e maldoso de quem pouco sabe sobre a vida.
Seguiu adiante, mesmo sob o risco, movida pelo gesto de não deixar morrer o que ainda pulsa — a solidariedade, o cuidado, o desejo de presença.
Foi bonito ver essa força circular: o olhar trocado, o riso que rompe o medo, o toque simbólico de quem sabe estar junto mesmo diante da violência.
Há uma inteligência que nasce do corpo quando ele não teme o excesso.
A força está na distribuição — feito o mar que acolhe e transborda, não retém e não acumula.
O vento mudou. Deu través, depois contrário. E as velas pediram ajuste: abrir, ceder, tensionar. Há um saber do corpo-barco que só aparece no mar aberto: sentir o vento pela pele, ouvir o estalo do pano, aceitar a força contrária como o que nos faz seguir. A escuta se torna ritmo; a análise, tempo de velejar — sem atalhos, com paciência de correnteza.
Escrevo a você que talvez também tenha sentido vontade de não se interromper.
A você que busca sustentar o gesto até o fim — o abraço, a palavra, a entrega, o treino, o amor, o ato solidário.
A flotilha se lançou ao mar não para desafiar a guerra, mas para lembrar que ainda há caminho a percorrer até que todos vivam na qualidade de corpo com território.
E, ao continuar, mostrou que o corpo coletivo também tem pulsação.
Há algo de político e poético em um grupo que deseja, mesmo acompanhado do medo.
É como se dissessem ao mundo: “estamos aqui, ainda respiramos.”
Se você me lê, é porque também compartilha esse movimento.
Talvez esta carta seja só uma extensão de um mesmo pulso — o teu e o meu, misturados na superfície do texto.
Como dois barcos que se reconhecem na maré.
Penso que o gesto é a unidade mínima da liberdade.
O corpo fala quando age, e o pensamento só chega depois, como eco.
A clínica é, muitas vezes, o espaço onde o gesto volta a ser possível — o espaço em que se autoriza novamente o contato, o som, o olhar, o arrepio.
Reich diria que há energia. Ferenczi, que há tato.
E há presença.
E presença é política.
Num tempo em que o medo tenta se infiltrar até nos poros, manter o corpo desperto é um ato de desobediência.
Hoje, a pele não é defesa: é passagem.
O corpo deseja, e o desejo é o que nos ancora no mundo.
A flotilha segue — ferida, mas viva; ameaçada, mas presente; cansada, mas inteira.
Cada um em seu ritmo, todos movidos por uma mesma corrente de vida.
O mar respira com eles; a pele respira com o mar.
As velas pedem a força do vento contrário — é nele que aprendemos a orientar o corpo para o que importa.
que a palavra seja pele.
que o gesto não tema sua própria beleza.
que o corpo continue sendo o território daquilo que resiste.
que o mar nos lembre que toda travessia é também retorno.
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2 comentários sobre “Flotilha de desejos”