Compor COM

aperto o REC antes de saber o que dizer.

fiz caderno, escrevi cartas endereçadas —
endereçei aos meus afetos,
joguei garrafas ao mar,
mandei mensagens.
não me escondi.

usei a câmera como envelope aberto:
falei, gravei, encaminhei
aos meus verdadeiros correspondentes —
alguns já morando em países distantes,
alguns já estavam longe
antes mesmo de nos conhecermos.

contei. e daí em diante, até agora:
escrevi,
registrei,
um álbum de cartografias.

sou quem pensa e manda notícias
das afetações, de ser e se entender corpo —
levando o desejo de permanecer na vida
acompanhado destes afetos,
ser neles, também,
me entender dotado de vida e pulso.

quem escreve para alguém
descobre, cedo ou tarde,
que está sendo escrito de volta.

Foi em 2018. Eu participava de um grupo de formação que mexia comigo por inteiro, e a animação não cabia no caderno. Então gravava vídeos e postava no YouTube — pequenas correspondências faladas para amigas que, por diferentes motivos, tinham ido morar em outros países. Eu me apresentava como correspondente delas: alguém que fica e conta. O rosto delas não estava na sala, chat ou videochamada por um bom tempo mas o corpo já conversava. A câmera funcionava como envelope aberto.

Antes disso, ainda, houve o Solos. Nove anos atrás, entrevistávamos, editávamos, e o dia da publicação era dia de lançamento depois almoço. Amigos, pessoas que pensavam e falavam bem sobre o que pensavam. Não era jornalismo — era composição. Cada síntese de trajetória saía do forno com duas assinaturas invisíveis.

E antes ainda, cartas. Uma amiga de faculdade, psicóloga, foi viver em Berlim. Nos escrevíamos. Eu não sabia, na época, que aquilo era método. Sabia só que escrever para alguém organizava o pensamento de um jeito que escrever sobre qualquer coisa não organizava. A distância virava matéria. O destinatário virava coautor.

Quando o blog nasceu, ele já nasceu assim — composto. As primeiras publicações eram conversas com brasileiras vivendo em Dublin, em Osaka; um jornalista interessado na vida das pessoas; correspondências entre amigos sobre estados à flor da pele. Alguns posts nem levam minha assinatura sozinha. E uma paciente, de outro país, me escrevia com saudade da língua materna — e eu entendi que a clínica online também era isso: um correspondente que fica, escuta e responde.

Compor com não é técnica de entrevista. É posição. É a diferença entre escrever sobre alguém e escrever com alguém — entre apontar a câmera e abrir o envelope. Na clínica, chamo isso de entre-corpo: o campo onde ninguém conduz, ninguém ocupa, e alguma coisa que não é minha nem do outro encontra passagem. O que chega de um encontro não se arquiva; pede forma. E a forma, quando é honesta, sai com mais de uma assinatura.

Escrevo isto agora porque estou voltando ao gesto de origem: preparar conversas em vídeo, intimidade de cozinha, a câmera como envelope. O correspondente envelheceu, mudou de suporte várias vezes — carta, vídeo, blog, garrafada — mas o gesto é o mesmo desde o começo: ficar, contar, e deixar que a resposta me escreva de volta.


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