Escolha Saber-se Corpo

notas sobre escolha

Escolha intenciona
Escolha imagina
Seleciona

Cria paisagens
faz passagem

Corpo que pensa
Palavra que veste
Recorte 

Pés lançam força
Faz território
caminham

Escolha desvia
Acerta e erra
e escolhe

e acerta
e erra
e volta escolher

e segue corpo
e se pensa
e se sabe
corpo que escolhe

afirma ciclos
escolhe
e segue ciclo

e escolhe
e segue formando
o passo
e o próximo

e o passo

e o próximo

passo a passo, encaminha


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Dançar · Continuidade · Keleman · Regina Favre · garrafadas


Toda escolha tem uma anatomia.

Não no sentido metafórico — no sentido literal. Há uma organização corporal envolvida em cada decisão: uma postura que se forma antes da palavra, um peso que o organismo avalia antes de qualquer argumento consciente. Quando a decisão desconsidera o saber-se corpo pensante, e no ritmo que o mundo externo impõe — a escolha fica sem chão. Não há sustentabilidade sem um aprofundar-se na condição de desejante, fazente e criador de chão. Costumo lembrar neste momento Regina Favre sublinhando na lousa a palavra “borda” e acrescentava: bordas firmes e porosas sustentam melhor os ambientes de colaboração.

É sobre isso que venho pensando. E é daí que nasce a série Anatomia da Escolha


Estes dia um paciente homem chegou ao consultório querendo “apenas” saber o que fazer. Não era exatamente uma demanda de psicoterapia — era uma pergunta prática sobre a existência de um longo casamento em risco e tudo que isso envolve.

Tinha competência técnica, inteligência, histórico de trabalho bem-sucedido. Mas lhe faltava o caminho para uma postura, o que não seria exatamente uma competência. Primeiro queria entender o que era presença dentro de casa, efetiva, e depois porque já não havia acolhimento e alegria.

O que ele buscava tinha nome: aconselhamento. Não interpretação transferencial, não processo longo. Uma bússola para aquela semana específica. E percebi, naquele encontro, que raramente acolhemos esse pedido no seu próprio registro. Tendemos a transformá-lo em outra coisa antes de tentar responder ao que foi trazido, enquanto ainda não se tece acordos de análise, terapia ou psicoterapia.


Me lembrei de um presente de amiga psicóloga e tudo que veio dentro do livro “Tudo Sobre o Amor, de bell hooks — na época! recebi como um gesto de cuidado com o que eu vivia amorosamente, e com o meu desejo de me colocar numa escrita em primeira pessoa.

Li com esta mesma atenção, de ser aconselhado ! e funcionou ! me senti respondido naquele momento de dor e ameaças de separação, livros me aconselham sempre. Tlvz por isso venho desde então recorrendo a escrita, escrever, sinto que bons textos trazem esse efeito, tlvz uma boa conversa com profissionais de saude mental possam trazer este efeito, um primeiro passo importante de cuidados com saúde mental, um passo em direção a psicoterapia.

Em outro livro — Olga Tokarczuk, em Escrever É Muito Perigoso — a escritora polonesa fala do homem ocidental como Indiana Jones: atravessa pessoas e culturas em busca de um tesouro, sem se deixar afetar pelo caminho. O movimento é sempre para fora. O tesouro, sempre adiante. O que fica para trás — os vínculos, o próprio corpo — é cenário, não território.

bell hooks escreve que os homens não podem amar se não lhes for ensinada a arte de amar. Não é acusação — é diagnóstico. A cultura patriarcal não se importa se os homens são infelizes nos relacionamentos. A dor deles passa despercebida precisamente porque o sistema não tem interesse em nomeá-la.

Na clínica, isso aparece no corpo antes de aparecer no discurso. Corpos assustados. Rigidez onde deveria haver fluidez. Gestos amorosos desviados antes de chegarem. Exageros performáticos — uma artificialidade sem cheiro, som, gosto e textura para se relacionar. Que um olhar atento, lento e delicado pode criar desvio.

Não é falta de vontade. Vontade que inventa território. Entre o estreito e o dilatado tem pulso — viventes e ambientais fazendo circulação. Escolhas com chão para se sustentar.


Escrever sobre a *Anatomia* de uma escolha é uma tentativa de nomear esse trabalho. Não como serviço novo — como clareza sobre o que já acontece quando alguém chega com uma pergunta prática e o que se está operando é da natureza corporal, somático, encarnado.

Permaneço inclinado acreditar que *Saber-se corpo* dentro de um ciclo maior, nos torna mais conectados, organizam bordas e acolhem reais belezas de uma vida cotidiana. Entender que uma escolha não é um evento — é uma continuidade. Que o passo que você dá agora forma o território onde o próximo passo vai pousar.

Passo a passo, encaminha.


junho 2026 — correspondente•PSi

Este post inaugura a série Anatomia da Escolha. Os desdobramentos chegam pelo canal garrafadas no Substack — onde o mesmo território aparece em outro registro.


Descubra mais sobre correspondente•PSi

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