respirar o intervalo
Drive My Car é o filme que me tocou por dentro em 2025.
Ele me tirou a pressa —
me conectou a uma escrita em paisagem.
Assistir foi entender com o corpo,
passear os olhos em boa companhia.
Drive My Car é o filme que me tocou por dentro em 2025.
Ele me tirou a pressa —
me conectou a uma escrita em paisagem.
Assistir foi entender com o corpo,
passear os olhos em boa companhia.
Vivo intimidade
quando a natureza do outro
não me constrange.
Quando posso permanecer
sem ajustar o corpo para caber.
Quando minha respiração não pede desculpa.
Quando o gesto não precisa se corrigir
antes de acontecer.
Vivo intimidade.
O constrangimento cai quando o campo vira ambiente — duas naturezas coexistindo sem hierarquia, sem fusão. Continuar lendo Intimidade – parte II
Improvisar não é liberdade total. É confiar que o corpo, quando sustentado, sabe responder ao imprevisto sem se perder. Continuar lendo Improvisar
Quando o comportamento dis-tensiona
E o ritmo desfaz bordas firmes
A forma cede o suficiente
Outra condição possa nascer
Transição é esse entremeio
Onde nada termina e tudo se dobra. Continuar lendo Transição
Pés tocam o piso como quem testa a temperatura do instante.
Nada exige velocidade.
A vida se espalha lenta, como cor que encontra papel. Entre tremor e apoio, o gesto aprende a durar. Ficar sem endurecer: borda que respira. Permanecer é acompanhar o ponto onde a forma treme sem cair. A clínica sustenta esse limiar — elasticidade, contorno e ritmo — até que o corpo reencontre continuidade.” Continuar lendo Permanecer
Deixar ir é reforçar o barco, não culpar o mar
Deixar ir é ouvir o vento: o barco inclina, a mão se solta, o gesto desliza.
Papéis finos mudam de direção, o corpo acompanha.
Cada desvio é método, cada curva é fôlego — onde a mão afrouxa, algo encontra passagem.
Deixar ir é reconhecer quando a forma pode seguir sozinha.
O cuidado afrouxa sem abandonar: sustenta até o ponto em que o corpo reencontra eixo e ritmo.
O vínculo se transforma em passagem — firmeza que autoriza continuidade.” Continuar lendo Deixar
Acordei na mesma cidade
com vontade de inventá-la acompanhado.
Encontrar com aliados.
E assim se deu.
Claraboia: agora tem luz de sábados,
luz filtrada até encostar na pele.
Mãos esbarram,
tropeços acalmam. Continuar lendo Ziguezaguear
Amanheço cais,
borda de maré,
plataforma de chegadas e partidas.
Um porto que não é muro.
É pele que recebe, não repele.
É chão no mar, não é barco.
É presença que permanece. Continuar lendo Cais
Excitação é o instante em que o corpo se expande para acolher o mundo sem romper. Potência que cresce, ritmo que respira, forma que aprende de dentro para fora. No campo clínico, não urgência: paisagem. O vivo regulando sua própria passagem. Continuar lendo Excitação
Intimidade como corpo que aproxima: pele que lembra, cheiro que convoca, paladar que partilha, som que afina. Um território vivo entre mundos que não se fundem — apenas respiram lado a lado. Escuta sensorial, vínculo-clima, clínica que caminha sem machado e guarda o fogo.
Dica sensorial — Piripkura (2017), dir. Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge:
Um filme que escuta floresta como quem escuta pele — quase silêncio, quase sopro — homens que carregam mundos na respiração. Vê-se o passo, não o discurso. Vê-se o vínculo, não a tese. Assistir é entrar devagar, como quem pede licença ao território vivo que ainda pulsa. Continuar lendo Intimidade
Colaborar é criar espaços onde processos vivos respiram próximos sem perder forma.
É acompanhar sem conduzir, sustentar sem ocupar.
Presença que oferece borda, ritmo e temperatura para que o outro encontre contorno próprio.
Na clínica e na vida, colaboração não é fusão, não é dívida; é um campo onde se experimenta elasticidade, onde gestos ganham passagem e onde a autonomia pode germinar sem pressa.
É o entre-corpo — zona onde ritmos se afinam e a vida encontra continuidade.
Continuar lendo Colaborar
O corpo lê o ar antes da mente. Cada atmosfera atravessa o gesto, dobra a respiração e inaugura caminhos invisíveis. Este texto acompanha como o corpo sente o mundo antes de entendê-lo — e encontra, no clima dos encontros, um modo habitável de existir. Continuar lendo O corpo que lê o ar
o tempo acende no corpo; o intervalo respira fundo, amadurece formas, sustenta tensões, reorganiza bordas, acolhe durações silenciosas e abre passagem para que o vivido encontre, sem pressa, sua continuidade possível Continuar lendo Tempo
Ruptura não é queda.
É convite.
É a dobra onde a vida reaprende a respirar
e se reconhece em outra forma.
Continuar lendo Ruptura
doce de encontro
sal de cansaço
amargo do que não veio
gordo do excesso
morno do repetido
e às vezes
ácido —
Continuar lendo Acidez
A tensão é um início.
Um murmúrio do corpo antes da palavra.
Tudo pulsa.
O gesto ainda não tem forma — apenas direção.
A vida se inclina, pede passagem.
No entre do que prende e do que empurra, algo quer nascer.
A descarga não destrói, reabre.
O corpo devolve o excesso à terra e se refaz em ondas.
Respirar é o modo mais discreto de sabedoria.
Tenciono porque aconteço —
aconteço porque ainda respiro.
Continuar lendo Tensão e Descarga
Confiar é quando o corpo encontra apoio para continuar,
mesmo quando o chão ainda se move e o passo só tateia.
O vínculo sustenta o vir-a-ser, e o gesto avança como vida compartilhada.
Sob o texto, o subsolo trabalha:
a clínica que me sustenta, a investigação viva,
ziguezagueando entre autores que caminham comigo. Continuar lendo Confiar
Quando a forma chega ao fim, é o corpo que avisa — e cada passo encontra um modo novo de continuar. Continuar lendo End’s
Ensaio sobre o corpo que se regula no mundo pela respiração: impedimentos como arranjos biográficos de proteção, pássaros como arquitetura da continuidade e o gesto de inspirar como risco e chance de ampliar a vida por dentro — mesmo quando o limite aperta. Continuar lendo Respirar como corpo de passagem de ar