caderno peripatético #02

o que faço com isso tudo?

Tenho escutado essa pergunta atravessada de medo.

O que faço com isso tudo?

Isso tudo não é um assunto. É um clima. Notícias, conversas, alertas, ameaças difusas. A sensação de que algo importante pode se perder. A impressão de que o chão não está garantido.

Escrevo sem resposta. Escrevo porque a pergunta insiste e porque ela também me atravessa enquanto escuto.

Percebo que, quando essa pergunta entra no consultório, algo muda no ritmo. A fala acelera ou trava. A escuta fica mais porosa.

Há dias em que sustentar a pergunta já é trabalho suficiente. Não empurrá-la para uma solução. Não transformá-la em tarefa. Não convertê-la em explicação.

Talvez o que esteja em jogo não seja o que fazer com isso tudo, mas como permanecer em contato com o que nos afeta sem endurecer, sem colapsar, sem desaparecer de nós mesmos.

Anoto isso aqui como quem marca um ponto no caminho. Não para orientar. Para lembrar onde estou passando.

O resto ainda caminha.


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