caderno peripatético #01

estou tentando melhorar

Este post me chegou durante um atendimento.

Escrevo no primeiro intervalo possível — desses intervalos pequenos, quase invisíveis, em que algo já está pensando no corpo antes de virar palavra. É provável que eu tenha pensado nele durante uma tarde inteira, enquanto trabalhava, enquanto escutava outras histórias, sustentando aquilo que nós, psicólogos, aprendemos chamar de atenção flutuante.

Há, portanto, uma dose de ficção aqui. Não no sentido de invenção, mas de composição. O que aparece neste texto não pertence inteiramente a uma única pessoa. Nem a uma única fala. Escutamos padrões, recorrências, combinações. Uma frase se apoia em outra, um gesto ressoa em muitos. A clínica nunca é transcrição literal — é campo.

O que me atravessava era algo simples e persistente: homens e mulheres perguntando como ser melhores na conversa, no cuidado, no vínculo. Buscando o como fazer, o que dizer, o jeito certo. Mas o que me chamava não era a técnica — era o peso que vinha junto com a mudança.


Uma coisa é experimentar outro modo de falar. Outra, bem diferente, é carregar a expectativa de que essa mudança precise resolver algo maior: acalmar o outro, salvar a relação, reparar uma história, justificar a permanência.

Quando a mudança chega assim — carregada demais — ela deixa de ser experimento. Vira prova. E prova aperta o corpo. A tentativa se torna vigilância. O gesto perde elasticidade. A fala até melhora por fora, mas por dentro a forma se estreita.

Vejo isso repetidamente na clínica: não é falta de vontade de mudar. É excesso de peso colocado sobre a mudança. O corpo tenta reorganizar uma borda, mas o campo exige que essa borda dê conta de tudo. A tentativa vira obrigação. A obrigação vira rigidez. A rigidez vira distância.

Este texto inaugura uma série que nasce desse ponto. Não para ensinar a conversar melhor, amar melhor ou escutar melhor, mas para acompanhar situações em que melhorar demais vira peso demais. Situações em que o cuidado começa não ao acrescentar exigência, mas ao retirar carga.

Não escrevo aqui para oferecer método nem promessa. Escrevo para sustentar um campo onde a mudança possa existir sem precisar salvar ninguém — nem o vínculo, nem a história, nem o outro.

Quando a expectativa afrouxa, algo respira. E só então o vivo encontra espaço para, talvez, se transformar.


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