ciclo espiral — captar, assimilar e continuar
Quando o comportamento dis-tensiona
E o ritmo desfaz bordas firmes
A forma cede o suficiente
Outra condição possa nascer
Transição é esse entremeio
Onde nada termina e tudo se dobra.
Soltar o peso
Saltar a forma ainda crua,
Deformar para caber mais
— abrir passagem ao que pede corpo.
A espiral desce para sentir o chão
Cresce para achar direção
Continua para não perder o fio
Caminhar em si é torção contínua
Captar a dedo
Assimilar no colo
Apreender modos
Inventar territórios
Variação de variações
Corpo-laboratório do vivo
Vivendo o mundo pelo modo como gira
Caminhar é espiral
Cada passo ensaia formas
Cada forma descobre caminhos
Cada caminho reinventa quem caminha.
estrato clínico — transição como forma em marcha
No trabalho do analista de abordagem corporal, transição não é intervalo neutro.
É o instante em que o corpo reorganiza seu modo de existir.
O comportamento dis-tensiona, o ritmo redistribui forças, a forma cede apenas o necessário
para ensaiar novas maneiras de sustentar continuidade.
Nada se perde: tudo se restitui na busca de próximas lógicas de existir.
O corpo em marcha revela essa reorganização com precisão sensível.
A espiral do passo — o pé que cruza, o peso que migra, o eixo que se realinha a cada apoio —
mostra como o vivo negocia microvariações para continuar.
Em Darwin não encontramos uma chave explicativa, mas um modo de perceber que a vida se transforma enquanto age, modulando-se em diálogo contínuo com o meio.
Na análise de fundamentos corporalistas, esse campo sustenta a biossubjetivação:
o corpo como matéria pensante, que experimenta caminhos antes de nomeá-los.
Keleman descreve esse processo como formas em formação:
densidades que adensam, rarefazem, torcem e ensaiam direções.
Regina Favre amplia essa escuta ao falar do tempo formativo, onde a mudança não é salto, mas maturação sensível.
O analista acompanha essas transições não para impor rota, mas para escutar a forma enquanto ela procura seu próprio modo de continuar.
Observar a marcha com precisão — suas oscilações, hesitações, espirais e retomadas —
torna-se um modo de compreender o desenho vivo que sustenta cada um.
Caminhar não é apenas deslocar-se: é testar mundos possíveis, discernir quais podem durar e permitir que outros se dissolvam sem ruptura.
Alguns textos deste blog caminham afirmando o entendimento dessa espiral,
cada um guardando um modo singular de mover corpo e pensamento.
Em certos momentos, a escrita aprende o desvio e recusa a linha reta,
encontrando inteligência nas curvas, como em Ziguezaguear.
Em outros, acompanha a forma que treme sem romper, buscando o mínimo necessário para continuar, como em Permanecer.
Há textos que revelam o intervalo como campo de respiração do mundo, onde o ritmo dobra para dentro, como em Pausa, e outros que expõem a lógica sensível do vivo — organização que busca elasticidade, não catarse, como em Tensão e Descarga.
Há post’s que se tornam cartografias do entre-corpos em movimento: aproximação que afina, expande e volta a pulsar, como em Intimidade.
Juntos, esses escritos prolongam o gesto de Transição.
Compõem minhas cartografias de movimento clínico, analíticos e vivente,
caminhos que não se escrevem apenas com palavras,
mas com o modo como o meu corpo se encontra com mundos.
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4 comentários sobre “Transição”