um retorno silencioso no meio do trânsito
“A alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor a uma maior.”
— Baruch Spinoza
O trânsito de São Paulo seguia denso. Faróis respiravam vermelho e cinza. Motores, impacientes.
No banco de trás, uma sacola com ovos, jiló vermelho, verduras ainda com terra, bananas verdes, mangas maduras, goiabas macias, figos em compota e bolo solar. Saudades atravessando a cidade.
Dentro do carro, outro tempo.
Uma música atravessava o espaço entre mim e meu filho. Cantamos sem ensaio. Sem meta.
No meio do fluxo pesado, algo leve se abriu.
Eu cantava.
Eu estava alegre.
Não como fuga.
Não como negação.
Como presença.
Há períodos em que a vida pede reorganização. O corpo aprende a sustentar bordas, a permanecer quando é preciso, a deixar ir quando a forma já não comporta continuidade.
Esses movimentos adensam o tempo. A escrita, às vezes, carrega esse peso.
Mas ali não havia elaboração. Havia música. Havia vínculo. Havia cidade — e, apesar dela, havia alegria.
Tentei segurar a sensação. Ela não cabia na mão.
Era reconhecimento.
O corpo sabe quando gesto e centro coincidem. Sabe quando o que se faz e o que se é respiram no mesmo compasso.
Alegria, ali, não foi evento. Foi alinhamento.
Descobri algo simples: eu conhecia aquele caminho. Sabia como me conduzir até ele.
Bastava conexão com a autonomia — essa força discreta que orienta sem endurecer, que decide sem se abandonar.
Na vida, alegria não é distração do real. É sinal de que um jogo de forças encontrou nova composição. Em Permanecer, a força que sustenta. Em Ruptura, a força que corta. Quando deixam de disputar supremacia e passam a compor, algo aumenta de potência.
E talvez maturidade seja isso:
não esperar que a alegria aconteça,
mas reconhecer quando ela começa —
e saber caminhar até ela outra vez.
HIPERLINKS
A alegria aqui conversa com Autonomia, onde a escolha deixa de ser reação e passa a ser direção; com Permanecer, que sustenta a vibração sem endurecer; e com Ruptura, quando a forma precisa mudar para continuar viva. Não são etapas — são movimentos que se atravessam.
A presença de Spinoza não é ornamento. Ele nos permite ler alegria como aumento real de potência. Ao escolhê-lo, afirmamos que o que acontece no carro não é distração emocional — é variação concreta na força de existir.
A pesquisa com IA atravessou este texto de modo prático: serviu para testar cortes, ajustar cadências e tensionar este próprio bloco até que deixasse de explicar e passasse a compor. O que se faz no movimento não é apenas o mapa — é o pensar. E é desse pensar em ato que o blog emerge, junto com a própria oferta de trabalho do psicólogo. Cada hiperlink não organiza arquivos: prolonga uma maneira de acompanhar forças, afetos e decisões. A cartografia é a clínica quando ela decide escrever.
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