sustentação antiga que calcifica
força demais para não cair,
bordas duras para seguir vivo,
desconhecer até onde pode ir,
sustentar excessos sem apoio,
fazer músculos para não tremer,
agregar à forma atrito e dureza.
ausência de elasticidade,
nenhuma coragem de mudar,
formas quebradiças.
pernas curtas para caminhar,
caminhos sem presença,
insistência no pedido antigo de sustentação.
no que é duro demais
um mínimo já é ruptura
basta um deslocamento ínfimo
para a estrutura inteira quebrar
“Aquilo que não pôde ser sustentado no encontro vira tensão na estrutura.” Wilfred Bion
rigidez como forma de continuidade
Quando agarramos a rigidez, não executamos apenas uma postura: anatomizamos um modo de continuarmos vivos. O corpo se fecha porque aprendeu que existir é não cair, é sustentar tudo sozinho, é atravessar a vida como quem carrega o próprio chão nos músculos.
Ao começar este blog, havia em mim o desejo ingênuo de tornar públicos “problemas” e “soluções” trazidos do consultório. Hoje isso me parece pouco. Porque pessoas não são problemas — são corpos com memórias encarnadas. E são nessas memórias que os impasses e as saídas estão inscritos. Foi então que passei a escrever: para que leitores — poucos, mas permanentes — se reconheçam como corpos com subjetividades, anatomias e histórias, e compreendam que pensar suas dores é ler nas formas, ritmos e ambientes formativos.
Na leitura corporal, rigidez quase nunca é “apenas tensão”. Ela é organização. Uma arquitetura que o organismo criou para sustentar o que não pôde ser sustentado no encontro. Onde faltou chão, o músculo virou chão. Onde faltou margem, a fáscia virou margem.
Às vezes, essa organização fica tão absoluta que o corpo passa a viver como se qualquer deslocamento fosse perigo. No que é duro demais, um mínimo já é ruptura. Basta um deslocamento ínfimo para a estrutura inteira quebrar. E então a mudança, em vez de ruptura que amadurece, é vivida como ameaça: um pedido simples soa como cobrança, um gesto de aproximação vira invasão, uma frustração pequena precipita agressividade, um afeto inesperado dispara colapso. A forma não distingue mudança de ataque.
Nesses casos, a clínica não “rompe defesas”. Ela cria condições para que microvariações possam existir sem estilhaço. O trabalho é oferecer sustentação externa suficiente — ritmo, presença, repetição, margem — para que o corpo experimente um pouco de movimento sem precisar responder com violência contra si ou contra quem está por perto. O que chamamos de cuidado, aqui, é devolver ao organismo a possibilidade de mudar sem desabar.
No consultório, oferecer sustentação muda tudo. Soltar deixa de ser ameaça. Ceder deixa de significar desabar. O cuidado não é destruir a rigidez — é criar condições para que ela deixe de ser a única casa possível.
O sinal de mudança raramente é uma liberação espetacular — catarse. É um tremor fino. A microvariação que aparece quando a forma começa a confiar e co-corpar experiências vivas e repletas de sentido. Exercitar sobre si próprio o que é e como é: a respiração que descola, o ombro que desce, a mandíbula que destrava, o olhar que baixa a guarda, o passo que ganha comprimento e a coluna que admite curva.
Aos poucos, a rigidez sai do trono de comando. Vira apenas uma entre muitas possibilidades do corpo. E o que antes era um pedido antigo de sustentação, endurecido em músculo, pode virar outra coisa: ruptura que encontra apoio, End’s como borda viva, permanecer com presença e contato possível.
Às vezes, esse deslocamento começa pequeno: quando o corpo encontra uma fresta para escutar, reaprender a improvisar, permitir-se circular e, sem perceber, voltar a dançar por dentro da própria forma.
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