Continue em 2026

ano-passagem — pulsos próprios

quero que 2026 atravesse
como atravessa a maré
um corpo que não se defende do movimento
e que estejamos embalados pelo próprio pulso

escrevo como
catador-coletor de palavras
recolho sílabas no chão do dia
aproximo, afasto, viro do avesso
até que o sentido
volte a bater
no mesmo ritmo da carne

o que em mim pensa
já nasceu pele
já é memória sensorial
já é pensamento encarnado
caminhando

2025 me mostrou
que tudo chega em fragmentos
e que são eles
que abrem o mundo
uma esquina
um riso
um silêncio de tarde
e o real inteiro
se oferece

continuar
é um gesto de cuidado
caminhar
é uma política do vivo
criar singularidade
é não trair
o próprio pulso

em vez de símbolo, escolho mãos.
mãos que leem.
mãos que pesquisam o humano.
mãos que recolhem o mundo por contato,
como quem aprende textura antes de aprender nome.

sou leitor do que acontece.
pesquisador de presença.
aprendo porque desejo
aumento de complexidade,
mais fluência
na minha própria condição de aprender.

com as mãos,
tento o real sem apertá-lo.
tateio a vida
para que ela se diga
sem ser forçada.

o desejo de ano novo
não é controlar
é não apertar a vida com medo

é pulsar com ritmo
deixar a batida
desorganizar a forma
até que ela volte
mais porosa
mais possível

pulsação
é a ponte
entre o que foi
e o que quer nascer
entre a memória
e a rua

que 2026 se saiba
um corpo
de pulsos próprios
atravessando
continuando
inventando mundos
sem pedir licença
ao medo

pulsa vontade de encontro
um balcão de bar
uma praia calma
uma conversa que aquece
o lugar exato
onde algo em mim
responde

e sigo
não segurando o tempo
mas andando com ele
confiando
no bater discreto
que me leva

eu escrevo tudo isso

porque desejo
que quem me lê
também se saiba escrita
se entenda pulsação.

desejo que cada pessoa
possa sentir no próprio corpo
que não é coisa fixa,
mas ritmo,
maré,
batida que se ajusta
ao mundo.

quanto mais alguém
aprende a se tocar nisso —
nesse pulso que vive por dentro —
mais vida
corre em ser quem é.

eu quero me aproximar

de leitores e escritores
que não se apertem
para caber.
que não transformem medo
em forma.

quero pessoas
que se saibam
corpos que aprendem,
peles que registram,
mãos que investigam
o real com delicadezas.

se estas palavras
abrirem correspondências
em alguém,
já terá valido.

que 2026
nos encontre assim:
menos rígidos,
mais pulsantes,
mais capazes
de existir

Ler é escrever
sem se ferir.

trilha de passagem:


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