escutar — vibração, intervalo e presença no aumento da complexidade do vivo
“Escutar é um modo de servir de terra para plantar conteúdo e colher diversidade .”
Correspondente PSI
Escutar não é captar um som.
É permitir que algo toque o corpo
antes de virar entendimento.
O som chega como pressão no ar,
como variação mínima que pede passagem.
Antes da palavra,
há um ajuste —
um inclinar-se interno,
quase imperceptível.
Escutar é isso:
um corpo que se desloca um milímetro
para que o mundo possa entrar.
Não se trata de decifrar,
nem de organizar o que chega.
Escutar é sustentar o intervalo
entre o impacto e o significado.
Manter a forma aberta
tempo suficiente
para que o vivo se apresente.
Há uma dança silenciosa na escuta.
O corpo aprende ritmo
sem coreografia.
A respiração muda.
O tônus responde.
Algo em nós se prepara
sem saber para quê.
Na clínica,
na música,
na conversa,
na cidade:
escutar é um gesto de confiança
no que ainda não se resolveu.
Por isso, escutar cansa.
Porque exige presença
sem defesa rápida,
atenção sem conclusão.
Escutar é dançar por dentro.
Uma dança sem espetáculo,
sem aplauso,
sem forma final.
Quem escuta bem
não corre para fechar o sentido.
Permanece em vibração.
E é nesse estado —
instável, sensível, vivo —
que algo novo pode nascer.
Escutar não conduz.
Sustenta.
E, às vezes,
isso basta para que o mundo
encontre passagem.
estrato clínico — escuta como ambiente-processador
Na clínica, a escuta não é uma ferramenta “mental” aplicada ao outro: é um ambiente que o corpo cria. Um campo onde vibração, intervalo e presença viram condições de trabalho — não conceitos, mas matéria respirável.
Sustentar o intervalo é sustentar a transição: adiar o fechamento do sentido para que a experiência possa se reorganizar sem violência. Quando o corpo suporta esse tempo (mesmo que curto), o que chega não precisa virar defesa imediata; pode virar forma em formação.
Essa escuta como campo (e não “técnica”) conversa com a linhagem da biossubjetividade em Regina Favre: o corpo se reorganiza em ambiente, não no isolamento.
Escutar, assim, aumenta a complexidade do vivo: multiplica possibilidades de resposta, amplia nuances, afina ritmos. E, no melhor dos casos, devolve ao encontro algo simples e raríssimo — continuidade.
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trilha da carta — ver e ouvir
filme — Le Ballon Rouge (1956), direção: Albert Lamorisse (França).
no e-mail, player costuma falhar — então aqui vai em modo “janela + link”.
música — “Meninante (Live)”, Flux Trio — composição: Daniel (Flux Trio).
deixar o som tocar antes de virar entendimento.
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