dançar a passagem — a carta digital como janela, sala, trilha sonora e chão de dança
Dançar a passagem
Conhecer sem explicar.
No corpo, aprendemos
o gosto de ser
inventar escolhas,
um gosto profundo,
anterior à ideia.
Dançar
na experiência de ser
eu-corpo
que se entende enquanto se move.
Sem projeto.
Sem pretensão de forma final.
Arredondar como onda
Encontrar borda no volume
Curvar antes do gesto reto,
Esfregar no desvio.
Torcer em espiral,
Ganhar espessura
Esparramar com direção.
Escorregar por tangentes
Permanecer em contato
Deixar ir por vibração
Caber no sútil pulso
arrochar até tocar presença.
Acontecer
Ser tomado por som,
por presença, música
por um agora espesso
Uma pré-forma
que respira
e não tem pressa de virar coisa.
Improvisar
desencadear outro algo.
O gesto chama o gesto.
Seguir-se corpo
Alcançar
Reverberar
Re-ver:
ver corpo em meio
o que só aparece
quando o som estremece
e atravessa
antes de virar música.
O tempo se alonga,
cede,
se dobra em sanfona
Não conduzir
ser condução
inteligência que pulsa.
Dançar
para permanecer em variação.
E enquanto dança
Elaborar sentidos
Ser atravessamento.
Ser gosto.
Ser presença que se inventa.
…e todos sabemos como se dança
estrato clínico
Às vezes a tristeza não é falta de força: é falta de território. Quando o campo social se estreita, o vivo perde circulação. E o corpo — que é bicho de vínculo — começa a economizar presença, como quem fecha janelas para não gastar luz.
A dança, nesse ponto, não entra como performance. Ela entra como rearranjo de campo: um modo de reabrir contato, de recuperar ritmo, de sustentar borda sem endurecer. O corpo volta a aparecer porque encontra resposta — e resposta é uma das formas mais discretas de cuidado.
Daí as perguntas não como teste, mas como trilha: o que em você quer circular hoje? o que pede intervalo? o que pede presença sem explicação? Se o passo fosse uma ideia, qual seria — e em que parte do corpo ela encosta primeiro?
Posts-irmãos (para passear sem pressa): Circular · Escutar · Andar · Intervalo · Permanecer · Improvisar.
filme para acompanhar
música para ouvir junto
Uma carta, hoje, pode ser isso: janela que abre campo, sala que acolhe presença, trilha sonora que puxa o corpo de volta, chão de dança onde a vida reaprende a circular.
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4 comentários sobre “Dançar”