respirar o intervalo

Drive My Car (2021),
Ryusuke Hamaguchi — Japão
com Hidetoshi Nishijima, Toko Miura, Masaki Okada

cinecorpos

“Viver o intervalo também move o caminho.”
Correspondente PSI

Drive My Car é o filme que me tocou por dentro em 2025.

Ele me tirou a pressa —
me conectou a uma escrita em paisagem.
Assistir foi entender com o corpo,
passear os olhos em boa companhia.

Deslizei da pressa do meu corpo paulistano,
parado no congestionamento das avenidas,
para uma calma de estar na carona
das associações que me chegam pela escuta e, por vezes, pelas cartas.

Certas dores só se movem quando o
tempo encontra o que  desacelera.

O carro avança, mas o corpo dos personagens segue outro ritmo —
mais lento, mais fundo, mais silencioso.

O filme fez em mim
intervalo.

O espaço entre uma frase e outra,
entre um ensaio e o próximo,
entre dois corpos sentados no mesmo carro —

Um filme que me diz de viver
com o tempo em pulsos largos.
Nada acontece de forma espetacular;
tudo amadurece devagar,
como um gesto que só encontra sentido depois.

A motorista e o diretor do filme
parecem cúmplices de uma intimidade que não se nomeia.
Não é amizade, não é confissão, não é confronto.

É uma espécie de abrigo temporário:
o carro vira casa,
vira campo neutro
onde a dor pode existir
sem ser apressada a desaparecer.

Isso me tocou especialmente porque, neste ano,
os atendimentos no parque voltaram
de maneira muito significativa.

Pensei — e senti —
o caminhar como um consultório flutuante:
um abrigo temporário para dores,
angústias e dúvidas.

O filme me lembra que:


Continuar não é resolver —
é encontrar um modo de
permanecer
dentro da própria história,
mesmo quando ela pesa.

O caminho não é destino,
mas organiza.

Drive My Car sabe disso
e respira junto.

Assista ao trailer de Drive My Car:

Mais informações de onde assistir:
Drive My Car — opções de streaming


Enquanto via o filme, senti que ele respirava
o mesmo ar que escrevi em
intervalo:
esse lugar onde nada precisa acontecer,
mas algo se realinha por dentro.

O intervalo aqui não é falha —
é método.

Houve também um toque de
intimidade
a que se constrói sem urgência,
sem demanda,
apenas pelo fato de dois corpos
compartilharem silêncio.

E vi no percurso desses personagens
um eco discreto de
permanecer:
continuar existindo
mesmo quando o sentido ainda não chegou.

A cidade que passa pelas janelas
me lembrou a delicadeza que escrevi em
arquitetura do comum
esse modo de dividir com o outro
um território que não pertence a ninguém,
mas que permite respirarmos juntos
por algumas horas.

Saí do filme com a sensação nítida
de que sou corpo que sabe ser
intervalos,
se não estiver desatento comigo.

Continuarei escrevendo
para acompanhar
essa compreensão lenta.


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