Desacelerar – ou “o dezembro dos encontros”

Desacelerar
para afirmar diferenças,
posicionar interesses,
receber o volume do vivido
e sustentar a
intimidade
com o que pulsa sem roteiro.

Há um cansaço bom.
Sem esgotamento.
De quem viveu
com presença suficiente
para precisar repouso
e deixar o
tempo
trabalhar por dentro.

Troco gesto por
comportamento.
Troco performance
por afirmação de desejo.
Improvisar
não é perder forma —
é colaborar
com o vivo
no meio da
transição.
Não fazer menos —
fazer mais rente.

Observar-se
é criar
intervalo.
Um espaço onde a
excitação
pode tremer sem romper,
sem virar
acidez,
sem pedir
ruptura
imediata.

Encarnar nas experiências próprias.
Tremer excitações.
Avançar mãos e abraços.
Arriscar não temer.
Deixar
acontecer.
Retirar-se da fila do pão,
inventar-se padeiro,
confiar
no próprio modo
de ser desejado.

Ao me observar,
toco algo mais fundo:
a condição de estar
permanentemente beneficiado
pelos processos vivos
que me carregam,
mesmo quando nada avança.

Não perco quando não avanço.
Complexifico.
O corpo cria conexões,
amplia campo,
refina escuta
e aprende a
permanecer
no que ainda não tem nome.

Não me comparo.
Não em detrimento de outro.
Cada corpo tem seu modo
de inventar o mundo,
de colaborar com o tempo
sem trair a própria cadência.

com tempo próprio,
com densidade,
com convites inusitados
que nem sempre cabem
em códigos hegemônicos.

Ser quem sou
não é vantagem nem desvio.
É condição viva
em permanente aumento
de complexidade e relação —
o humano em nós
em processo.

Desacelerar
é deixar que isso assente.
É confiar no intervalo.
É permitir que a vida
me alcance por dentro
antes de seguir.

Hoje fico aqui.
Inteiro.
Sem cálculo.
Sem ruptura.
Observando-me
como quem reconhece
que já está acontecendo —
e isso basta.


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