Intimidade – parte II

quando a natureza do outro não me constrange

Vivo intimidade
quando a natureza do outro
não me constrange.

Quando posso permanecer
sem ajustar o corpo para caber.
Quando minha respiração não pede desculpa.
Quando o gesto não precisa se corrigir
antes de acontecer.

Vivo intimidade
quando o modo de existir do outro
não me reduz
nem me convoca à defesa.

Quando a diferença não ameaça
e a semelhança não aprisiona.
Quando posso ser atravessado
sem ser invadido.

Vivo intimidade
quando a presença do outro
não exige tradução imediata
nem adaptação forçada.

Quando há espaço
para o estranho,
para o ritmo próprio,
para o tempo que cada corpo leva
para confiar.

Intimidade nasce
onde a natureza do outro
não pesa sobre a minha,
não corrige meu contorno,
não pede que eu seja menos
para que o vínculo exista.

É aí que o encontro deixa de ser prova
e vira clima.
É aí que o corpo descansa
sem se desligar.

Vivo intimidade
quando posso existir inteiro
ao lado de alguém
que também não precisa se diminuir
para estar.


“Vivo intimidade quando a natureza do outro não me constrange.”

Correspondente PSI

estrato clínico — a natureza do outro como campo respirável

Clinicamente, isso se revela quando o corpo não precisa se defender da presença do outro. A musculatura não antecipa ataque, o gesto não se corrige, a respiração não encurta para caber. Há intimidade quando a diferença não ativa retração nem adaptação forçada — e quando o encontro pode existir sem que ninguém precise reduzir a própria natureza para ser aceito.

No primeiro texto, Intimidade, a singularidade estava em nomear o íntimo como território sensorial: pele, cheiro, paladar e som como vias de confiança — o corpo sabendo antes da palavra, a aproximação como linguagem dos sentidos. Aqui, o foco se desloca: não é mais apenas chegar, mas sustentar um campo em que duas naturezas possam coexistir sem constrangimento.

O constrangimento é um sinal sensorial: indica que algo no campo relacional exige ajuste excessivo. Quando ele aparece, o corpo se organiza para caber — e essa organização custa caro: encurta o fôlego, endurece o gesto, empobrece o ritmo. Quando ele diminui, o corpo encontra autorização para existir no próprio tempo. Não porque o outro se pareça comigo, mas porque sua forma de estar não ameaça a minha.

Na clínica, intimar é sustentar esse entre como ambiente. Um lugar em que ninguém precisa acelerar processos, esconder modos, apagar diferenças ou “performar vínculo” para continuar em relação. A intimidade madura não cola nem foge: ela oscila, negocia bordas, reconhece ritmos, aprende pausas — e faz da presença um chão vivo, responsivo, sem captura.

Vivo intimidade quando posso permanecer inteiro diante do outro — e quando o outro também encontra chão para existir sem se explicar. É nesse campo respirável que o vínculo ganha durabilidade: não por fusão, mas por respeito sensível às formas vivas que se tocam sem se constranger.


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2 comentários sobre “Intimidade – parte II

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