permanecer — inclinar sem romper
Pés tocam o piso como quem testa a temperatura do instante.
Nada exige velocidade.
A vida se espalha lenta, como cor que encontra papel.
Há um gesto pequeno que cresce,
uma mão que risca, pausa, respira —
e outra presença que acompanha sem dirigir.
Dois ritmos se escutam.
O tempo abre espaço.
Sobre a mesa, objetos formam uma constelação doméstica:
cores espalhadas, brinquedos que aguardam,
livros que fazem peso suficiente
para que tudo não voe de repente.
Tudo ali sustenta o ar do momento.
O corpo que cria inclina, mas não cai.
O corpo que está ao lado sustenta sem ocupar.
Entre os dois, uma continuidade se forma:
um modo de durar o bastante
para que um traço encontre forma.
Permanecer é exatamente isso:
não segurar demais, não soltar abrupto.
Apenas acompanhar o ritmo que nasce
e deixar que o gesto encontre
seu próprio jeito de continuar.
“A firmeza não é rigidez: é a capacidade de tremer sem cair.”
Suely Rolnik
Permanecer é acompanhar o ponto em que a forma treme sem romper.
Como lembra Suely Rolnik, firmeza é vibração, não dureza.
É nesse limiar que se reconhece quando a intensidade ainda pode ser sustentada
e quando já pede contorno.
O corpo anuncia esse ponto pelo ritmo: respiração que se encurta, gesto que hesita,
olhar que busca superfície.
Acompanhamos essa oscilação sem empurrar, sem travar —
movimento próximo ao que desenvolvo em
Topografia do intervalo,
onde o vivo reorganiza sua excitação antes do próximo passo.
Histórias de colapso costumam ensinar dois caminhos: fugir ou endurecer.
A clínica cria um terceiro: inclinar sem cair.
É o que aprofundo em
tensão e descarga:
não romper defesas, mas recuperar modulação e elasticidade.
Há riscos que são férteis.
Não os que lançam ao vazio, mas os que permitem perceber que já existe
suporte interno suficiente para não desintegrar.
Stanley Keleman lembra que a forma precisa suportar a própria vibração
para amadurecer outra organização —
o gesto só se transforma quando dura o bastante.
Permanecer é exercício de continuidade.
O corpo treme, mas respira.
A intensidade sobe, mas encontra borda.
A forma não endurece — sustenta o necessário
para que algo se organize por dentro.
Nesse ponto, o acompanhamento não elimina risco:
discrimina quais riscos fazem crescer
e quais repetem quedas antigas.
Permanecer é ética do vivo.
Não exigir o que o corpo não alcança, nem conter o que ele já pode.
Escutar quando a vibração pede apoio —
e quando já encontrou chão próprio.
A continuidade nasce desse saber fino,
e o gesto segue vivendo.
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9 comentários sobre “Permanecer”