#janela #4

Deixar

deixar ir — reforçar o barco, não culpar o mar

Deixar ir é acolher o que diz o vento.
Todo barco se inclina e faz chão no sopro do vento.
As margens — como as palavras — acompanham a voz que passa.
Brincamos no chão enquanto o vento ergue nossos desenhos
em papel fino, manchado de tinta;
ele refaz a direção, diminui a pressa.

O mundo sopra; o barco escuta.
No meio dos recortes, algo se desprende.
Não cai — desliza.

Síntese — o que recolhe onde vibra,
mínimos que se juntam e formam ponto de apoio.
Ziguezaguear — o modo mais preciso de não se quebrar
enquanto os sentidos se deslocam.
Entrelaçar — fazer nós vivos,
segurar e soltar as pontas de corda.

Deixar ir é seguir a inclinação das coisas.
O mar jamais promete calma —
é o barco que aprende a vibrar sem partir.
Cada desvio é método; cada curva é fôlego.
O gesto continua onde a mão se solta.

Reconhecer os passos, finalizar processos.
Um canto encosta no outro e a luz muda de lugar.
A porta fecha com um sopro que não pesa.
Outra abre como quem cede só o necessário
para o corpo atravessar.

Entre as duas, o chão segura.
E algo desata.

“Soltar não é largar: é abrir espaço para que a vida reencontre seu próprio pulso.”
Suely Rolnik

No consultório, deixar ir não é afastamento; é forma que encontra seu próprio ritmo.
Como lembra Suely Rolnik, a vida só se move quando há espaço para que seu pulso apareça.
A clínica acompanha esse instante em que o apoio deixa de ser urgência e se torna passagem —
bordas que se afrouxam sem desaparecer, permitindo que o gesto siga no tempo que é seu.

Esse entendimento atravessa o que venho trabalhando: em
“Colaborar”,
o cuidado surge como gesto que sustenta sem ocupar;
em “Topografia do Intervalo”,
o intervalo aparece como território onde o vivo respira antes do próximo passo.

Há acompanhamentos que nascem da urgência: impedir o colapso, reconstruir um fio mínimo de
continuidade, abrir espaço para que o corpo recupere eixo próprio.
Como lembra Tim Ingold, “o caminhar afina o rumo pelo sentir” —
e o trabalho clínico percorre essa mesma delicadeza: não empurra, não retém, apenas acompanha o movimento que se reorganiza.

Esse solo também aparece em
“Composteira do fim das ilusões”,
onde a autonomia se forma quando o gesto deixa de habitar o campo da sobrevivência e passa para o campo da criação de forma.
O cuidado precisa reconhecer quando apoiar e quando devolver ao mundo —
como escrevo em “Ruptura”,
há cortes que são reorganização, não abandono.

Deixar ir é confiar que a forma encontrou elasticidade suficiente para caminhar sozinha.
Como lembra Mia Couto, “em cada desprender há um renascer” —
e é esse renascer que autoriza o fim de um processo, não como perda, mas como passagem de estado.

A tempestade não desaparece; é o barco que descobre outro modo de navegar.
Encerrar um acompanhamento é fortalecer a borda que permite continuar.
Deixar ir é devolver o gesto ao seu próprio ciclo, com a confiança de que aquilo que se formou
permanece como solo interno — e não como dependência.


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