Acordei na mesma cidade
com vontade de inventá-la acompanhado.
Encontrar com aliados.
E assim se deu.
Claraboia: agora tem luz de sábados,
luz filtrada até encostar na pele.
Mãos esbarram,
tropeços acalmam.
Passos girando,
e só por estarem em giro
acompanham nossos interesses.
Girar para não tontear.
Caminhar por várias cidades,
tocar imigrantes-nações,
desviar paladar,
arriscar idiomas.
Sombrear por baixo das telhas, vigas e lonas verdes.
Fazer parada diante da rotina alheia
e ser grato à originalidade da vida diária.
A bicicleta vermelha espera.
Tubos e conexões de passagem anunciam confiança.
Do ladrilho do chão aos potes de armazém,
assistimos à topografia das nossas conversas.
E as frutas, legumes, castanhas, temperos
preenchem de sabor o que já era aliança.
A aliada caça, na síntese, as palavras:
andança flutuante,
prestar atenção compartilhada,
conversa larga e múltipla sem pressa e ziguezagueante,
sabores surpreendentes,
encontro experimental a partir do corpo e seus perceptos.
Giro, foco, conexão, desvio, caçadores de imagem.
No meio do cheiro de coentro e do sal grosso em sacos,
as palavras começaram a se aninhar nas coisas.
Cada curva do corredor era um convite
a errar o caminho certo.
Quando as fotos chegaram —
a parede vermelha coberta de ferramentas,
os quadros de grãos,
o chão de ladrilhos,
o corredor vazado de luz —
a Aliada devolveu em cinco gestos o mapa do dia.
E era como se o sábado tivesse encontrado
sua própria caligrafia,
escrita a muitas mãos.
Andávamos sem roteiro.
O foco surgia do desvio:
uma luz torta no teto,
o reflexo de um vidro,
as conexões na parede vermelha.
A atenção era coletiva —
cada um apontava o que via,
e o olhar do outro abria uma camada nova.
A conversa se espalhava na largura do corredor,
atravessando política, corpo, trabalho, futuro,
sem pressa de concluir.
Talvez pesquisar seja isso:
aceitar que o corpo sabe mais do que o plano.
Seguir o que vibra, o que chama, o que incomoda.
Escutar com a boca que prova,
com o olho que enquadra,
com o pé que tateia o chão.
Inventar o corpo-cidade
e escrever a cartografia dos possíveis
Fazer fácil um nosso ser possível!
estrato clínico — pesquisa em andança flutuante
Em Francesco Careri, caminhar não é deslocamento neutro: é gesto estético que produz espaço. Ao andar pelo mercado, o corpo não apenas atravessa um cenário; ele escreve, com cada desvio, uma forma de mundo. O sábado torna-se campo de estudo porque a percepção é posta em movimento.
Na chave fenomenológica de Maurice Merleau-Ponty, o corpo é o lugar onde dentro e fora se enlaçam. Não há percepção sem corpo próprio, sem esse “eu posso” silencioso que decide a cada passo para onde ir, o que focar, o que deixar escapar. A andança flutuante é, então, um treino de corpo-percipiente: a atenção se distribui, tenta, volta, testa bordas.
A experiência descrita na janela poética prolonga o que já vinha sendo cartografado em
Nossos modos nômades
e
Flotilha de desejos:
o caminhar como método. Aqui, porém, o foco recai sobre a qualidade da atenção compartilhada. O olhar não é individual; ele se faz em rede, na parceria com a “caçadora aliada” e com tudo o que se oferece no percurso.
O mercado funciona como laboratório de formas: a bicicleta vermelha, os potes alinhados, as ferramentas na parede, os cheiros misturados. Cada elemento convoca uma microvariação de tônus, de respiração, de interesse. A clínica corporalista pode ler essas variações como ensaio de regulação em campo aberto: foco e desvio, aproximação e recuo, saturação e respiro.
Nesse sentido, a prática de caminhar e caçar imagens amplia o repertório clínico. O analista não depende apenas do consultório para observar modos de estar-no-mundo; ele se deixa afetar por cenas comuns, como as do mercado, e ali percebe estratos de experiência que depois retornam à escuta em sessão. Corpo, cidade e relação se tornam camadas de um mesmo processo formativo.
Talvez seja esse o núcleo do método que se anuncia: inventar corpo-cidade como quem testa formas de presença. A clínica não vem explicar o sábado; ela se deixa instruir por ele. O estrato que emerge dessa andança flutuante é uma forma de saber que passa primeiro pelos pés, pelos olhos, pelo paladar — e só depois encontra linguagem.
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2 comentários sobre “Ziguezaguear”