porto de portas abertas
Amanheço cais,
borda de maré,
plataforma de chegadas e partidas.
Um porto que não é muro.
É pele que recebe, não repele.
É chão no mar, não é barco.
É presença que permanece.
Porta aberta
pra chegar ou sair.
E as ondas batem antes de acalmar,
e as ondas jogam pra fora
o que não cabe mais dentro,
e as ondas continuam sendo ondas.
E o cais?
Esse está lá:
madeira sob o sol,
corpo que deve gastar ao sol.
Assume rachaduras,
faz trincas,
ensina porque assume seu próprio gasto.
Nem toda onda vem para derrubar.
Algumas só querem descansar um instante
antes de voltar ao mar.
estrato clínico — cais, borda e diferenciação
“A vida não é útil. A vida é bonita, é livre, é amorosa.”
Ailton Krenak
No processo de tornar-se pessoa, um jovem carrega dentro de si paisagens emocionais que ainda não sabe nomear. Quando a tensão transborda, procura o corpo mais firme por perto — não o mais leve, mas o que aguenta. É assim que a projeção encontra pouso em quem oferece continuidade.
A figura que sustenta vira cais: lugar onde a maré chega para testar bordas. Não por ser origem do medo, mas por ser o único território que não ameaça desabar. A estabilidade se torna superfície onde o afeto confuso pode se apoiar antes de aprender a respirar sozinho.
Sustentar não é função abstrata: é corpo. Madeira ao sol, que racha sem romper. A presença firme também se desgasta, marca, amadurece. Erra — e segue apoiando.
Todo filho, se cola à paisagem emocional da mãe; é assim que começa o caminho da individuação. Ao pai — ou à figura que ocupa a função de terceiro e cuidador — chega aquilo que ainda não pôde ser endereçado à origem da tensão, não por falha, mas pela natureza do processo de construção da singularidade. É o modo que encontramos de continuar existindo enquanto aprendemos a separar forças e reconhecer onde começa o nosso próprio contorno.
A clínica acompanha esse intervalo: ajudar a distinguir o que é próprio, o que é herdado, o que é pedido silencioso do ambiente. Ensinar o corpo a reconhecer onde começa a própria margem, sem quebrar vínculos nem negar afetos que nasceram antes da linguagem.
O cais não precisa ser muro nem salvador. Precisa ser chão respirante. Permitir que a onda bata, acolher sem se confundir, devolver ao mar o que é do mar.
Mais tarde, quando a travessia amadurecer, cada um encontra o próprio leme. E o porto segue existindo — não como limite, mas como lembrança de que houve um chão capaz de suportar a maré.
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