Excitação

Excitação — corpo em passagem

Excitação por ser afetado —
abrir-se,
saber-se corpo.

Adiar o que ainda não se explica,
aceitar a dilatação que nasce sem motivo,
só porque o vivo quer espaço.

Fazer curvas para o fora,
ir até o contorno,
habitar a pele.

Tocar o sal,
tragar o fora,
sem medo de se perder.

Deixar o mundo entrar
como quem aceita conversa entre peito e ar,
entre temperatura e pensamento.

Reconhecer o grau,
o clima,
a natureza do encontro.

Aceitar a pressa mansa do desejo,
cavalgar o coração
em galopares que lembram o início de uma alegria.

Excitação assim —
um corpo que cresce dentro da própria forma,
e aprende a mover-se,
sem romper.




estrato clínico — afeto,  e regulação

“O corpo é a ideia que se afirma na medida mesma em que se esforça por perseverar no seu ser.”
Benedictus de Spinoza

“A vida emocional pulsa: carrega, expande, descarrega e repousa — e é na interrupção desse ciclo que sofremos.”
Wilhelm Reich

Quando pensamos o afeto à luz de Spinoza, ele aparece não como sensação transitória, mas como variação de força vital. Em sua ontologia, ser afetado é ter a potência de existir modulada — subir, expandir, ganhar corpo. Excitação, nesse sentido, é um aumento da vida, como descrevo também em território vivo: um espaço interno que se dilata para acolher mundo sem se quebrar.

Um corpo excitado não exige catástrofe, exige reverberação — ritmo que vibra sem colapsar. A excitação marca o instante em que o organismo se permite ser atravessado: mundo entrando, corpo respondendo, sem medo, sem violência. Aqui encosto o pensamento ao que escrevo em andar e falar: a excitação é passo que encontra seu próprio chão.

É nesse ponto que Wilhelm Reich se torna inevitável: a excitação é movimento pulsátil — alternância entre carga e repouso, expansão e retorno. Para Reich, a regulação depende da capacidade de percorrer esse ciclo sem travas: carregar, expandir, descarregar, descansar. Se Spinoza oferece o conceito de potência, Reich descreve sua circulação no corpo vivido.

Nesse território, a clínica corporal não busca precipitar descarga nem abrir atalhos. Ela acompanha a variação de intensidade como quem caminha por uma paisagem — escutando relevos, pausas, microclimas de respiração. É o que desenvolvo em subsolo clínico: não urgência, mas continuidade do vivo.

A excitação torna-se, assim, ponte entre desejo e forma, entre afeto e gesto. Um corpo excitado aprende forma de dentro para fora. Não explode — expande. É um modo de habitar a própria elasticidade, afinado com o que trabalho em mapa das forças: intensidade que se organiza.

Como escrevo em tensão e descarga, o corpo pode alternar contração e repouso sem violência — modulando a própria potência, sem perder chão. E em intervalo, o tempo não é ausência: é respiração para que a potência floresça, espaço para que o afeto encontre corpo antes de virar gesto.

Nesse entre — esse campo poroso onde o vivo se escuta — a excitação é vida que aumenta dentro da vida.
Corpo que cresce sem se romper.
Forma que amadurece sem rasgar a própria pele.


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