o território que se move entre pessoas
Embarcar memórias.
Acompanhar ritmos.
Encontrar margens,
encostar sem afogar a si
nem quem se toca.
Sonhar pra fora.
Erguer mastro no comum e compartilhado.
Hastear sonhos,
levantar o que estava dobrado por dentro
e ver a cor vibrar no vento.
Ventilar os desejos.
Desenhar mapas de encontrar,
destinos partilhados,
cartografar pulsação
que acende a pele.
Inventar palavras, torná-las públicas.
Intimidade, território ziguezagueado —
um pedaço de chão que se cria entre passos,
uma geografia que só existe
na dobra entre ritmos e diferença.
Corpar vínculos é dar corpo ao encontro:
deixar que o gesto encontre lugar,
deixar que o toque seja convite,
não fronteira.
Intimidade:
uma maneira de existir lado a lado
sem perder a própria respiração.
Uma permissão para crescer sem ruído,
ocupar pequenos cômodos de imensas possibilidades,
dividir o que não se carrega sozinho,
inundar-se de outros que somos,
ser processador, parte e todo sem dono.
Intimidade, delicado turbilhão entre nós.
Íntimo somos quando somos nós.
intimidade é um sentido — corpo que faz aproximação
“A pele recebe o mundo antes que o mundo saiba o que dizer.”
sensação anônima
“Existimos onde alguém nos toca sem apagamento.”
tradição oral
Intimidade não nasce da palavra.
Nasce dos sensores — do corpo que sabe antes de explicar.
Pelo tato, que mede a borda sem invadir.
Pelo cheiro, que reconhece presença antes do nome.
Pelo paladar, que mistura mundos sem apagar sabores.
Pelo som, que afina ritmo com ritmo antes da frase existir.
CHAMA quando a pele fizer chamada.
EU quando o gesto pedir testemunha.
Intimar é aproximar o corpo do acontecimento.
Não para fundir — para escutar.
Há vínculos que se formam pelo arrepio, não pela lógica.
Pelo calor do cheiro ao chegar perto.
Pelo gosto do que se compartilha em silêncio.
Pelo som do fôlego que encontra outro fôlego.
Intimidade é linguagem sensorial — lenta, viva, contínua.
Uma prática de encostar mundos sem quebrá-los.
estrato clínico — o íntimo como campo dos sentidos
Na clínica, observo que a intimidade se constrói onde os sentidos organizam confiança. Quando alguém toca a borda do sentir — pelo cheiro que lembra, pelo som que acalma, pelo tato que sustenta — emerge vínculo que não precisa ser dito para existir.
O corpo sabe antes da mente. Sabe onde aproxima, onde recua, onde o gesto pede mais espaço ou mais calor. A intimidade é essa negociação sensorial — clima que se fabrica com o que o outro oferece.
Acompanhando processos, noto que o gosto do que se partilha muda a escrita do encontro. Há sabores que pedem permanência. Há sons que pedem pausa. Cada sentido cria passagem, rota, borda.
É por isso que, quando escrevo sobre intimidade, escrevo com corpo. Intimidade não é conceito — é fenômeno. Sensação que vira gesto. Gesto que vira ambiente. Ambiente que se torna clima capaz de sustentar dois mundos próximos sem desmanchamento.
A clínica que acompanho nasce disso: do entre que os sentidos reconhecem. Do tato que hospeda, do cheiro que convoca memória, do paladar que mistura territórios, do som que estabiliza o passo. Intimar é permitir esse trânsito — sem exigir fusão, sem capturar o outro.
Não é o entendimento que aproxima — é o sensório. A palavra chega depois, como tradução possível daquilo que o corpo já sabia.
estrato clínico — onde o vínculo cria clima
“O que faz caminhar não é o passo, é o desejo.”
Mia Couto
“Não existe vida possível sem o encontro com outras vidas.”
Ailton Krenak
Os corpos que caminham contam histórias antes das palavras. A pele diz o que a língua não alcança.
Piripkura, filme da mata que respira gente, lembra que a vida pode ser tecido frágil e resistente ao mesmo tempo. Dois homens atravessam a floresta como quem carrega uma espécie inteira. Não falam alto, não reivindicam palco. Apenas existem — e existir já é gesto político, já é pulsação inegociável.
No estrato clínico, algo parecido acontece. Quando um corpo chega à sessão, ele também é uma nação pequena. Carrega florestas inteiras nas costas — memórias, perdas, desmatamentos afetivos — e, ainda assim, caminha.
A clínica é a busca por esses rastros vivos, como o servidor que procura os Piripkura para provar que eles ainda existem. Nós também buscamos vestígios: um olhar que não desviou, uma respiração que abriu espaço, um músculo que soltou a guarda por meio segundo. Às vezes, provar que ainda há vida dentro de alguém é o trabalho inteiro.
Corpo-território, pessoa-floresta. Cada sessão pede cuidado de quem entra devagar, sem machadadas, sem pressa de nomear. A escuta é trilha — e o vínculo é o clima que permite que algo floresça.
Em Piripkura, sobreviver é continuar caminhando. Na clínica, amadurecer também é isso: avançar pelo mato interno sem devastação, sentir o chão antes do passo, proteger o que ainda pulsa, guardar o fogo.
Descubra mais sobre correspondente•PSi
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
2 comentários sobre “Intimidade”