colaboração como gesto vivo
Criar espaços.
Aproximar sem sufocar.
Fazer caber pessoas no que somos,
entendê-las com pulsação contínua,
sem nunca diminuir para que o outro caiba.
Acompanhar e desenvolver junto —
uma presença que permanece sem ocupar.
Colaboração não gera dívida.
É existência partilhada:
meu processo, teu processo,
e esse entre-corpo que se cria
nas passadas e experiências que se tocam
sem se fundir.
A delicadeza é uma medida sentida —
mora na palma da mão
que sustenta pesos e forças
sem sequestrar autonomia.
Cuidado ajustado,
apoio que permite ensaios de contorno,
território para experimentar forma.
Segurar firme quando a estrutura busca organização,
soltar quando a vida pede ar,
acompanhar o que anuncia ritmo —
afirmar: isso é colaborar.
Enxergar brilhos.
Ver um corpo tornar-se pessoa.
Inteligência viva de vir-a-ser presença,
germinar onde antes havia apenas esboço.
E, ainda assim, permanecer perto.
Não para vigiar,
mas para fazer borda:
margem temporária
enquanto o outro aprende a se equilibrar
no centro que é só dele.
Colaborar, nesse sentido,
é sustentar relações que não dominam,
não exigem espelho,
não organizam o destino alheio.
É desejar ver o outro inteiro,
permitir que avance pelos próprios meios,
e reconhecer potências que só surgem
quando há espaço para respirar.
Colaborar é uma ética do cuidado que não aprisiona —
um oferecimento livre,
uma presença que não pesa,
um laço que respira.
Colaborar é se interessar pela vida das pessoas.
Ter bordas firmes e ajustáveis ao encontro.
Co-corpar ambientes
onde a vida encontra temperatura para continuar.
estrato clínico
“Caminhar é uma prática de abertura: onde dois percursos se aproximam, nasce um novo modo de estar no mundo.” Francesco Careri
Nesta minha prática de escrever o que me acontece enquanto psicólogo na clínica, colaboração aparece como um campo onde o encontro sustenta sem conduzir. É o modo como ajusto presença, ofereço bordas e afino o ambiente para que o outro experimente suas formas sem perder centro.
Percebo que colaboração não é fusão: é esse entre onde dois processos seguem vivos, cada um no seu eixo, mas em relação. O corpo se reorganiza quando encontra apoio firme o suficiente para dar contorno e flexível o bastante para não aprisionar — uma condição que favorece continuidade.
Esse campo atravessa muitos dos meus gestos aqui no blog: em tensão–descarga, quando descrevo a elasticidade necessária para sustentar a forma; em confiar, quando a presença encontra ritmo com o outro; em pausa, onde o corpo repousa antes de avançar; e na topografia do intervalo, quando escrevo sobre o espaço necessário para reorganizar caminho.
Colaborar, nesse estrato, é formar ambiente. É acompanhar sem sufocar. É oferecer ar para que o outro encontre a própria linha enquanto sabe que há presença junto. Não há dívida. Há passagem. Há continuação.
Descubra mais sobre correspondente•PSi
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
2 comentários sobre “Colaborar”