Acidez

quando o dentro pede passagem

há dias em que o dentro arde — pedindo passagem

o estômago não dói: ele ferve. o suco sobe, a mucosa afina, o peito se contrai num pedido sem palavras por passagem.

não é algo errado. é algo demais.

o corpo tentou conter, organizar, sustentar. mas a maré interna ficou alta demais para o recipiente. então queima.

a acidez é o gesto que não encontrou saída. um empurrão por dentro dizendo: mexe, muda, dobra, respira — ou eu queimo.

não há vilão nisso. há ecologia.

quando a vida aperta, o organismo faz o que pode: aumenta ácido, aumenta tônus, aumenta alerta — para não colapsar.

queimar, às vezes, é um modo de não afundar.

às vezes o fogo só quer intervalo: uma pausa, um gole de ar, um silêncio onde a mucosa possa se refazer.

outras vezes o fogo quer mudança: menos engolir, mais mastigar; menos calar, mais deixar sair.

o corpo não quer ser herói nem vítima. quer ritmo.

quando o gesto encontra outro apoio — quando algo é finalmente digerido (uma conversa, um choro, uma decisão, um não) — o ácido baixa.

o fogo vira calor. o calor vira digestão. a digestão vira tempo.

e onde ardia, surge uma pequena clareira. não de solução — de continuidade.


subsolo clínico — ecologia do que queima

neste texto, a acidez não aparece como “inimiga” a ser derrotada, mas como sinal de campo: o corpo tentando manter continuidade quando algo ficou preso sem passagem.

a pergunta que organiza a escuta aqui não é “como eliminar?”, mas “o que apertou o ritmo?” — o que estreitou o intervalo, o que virou engolir automático, o que ficou tempo demais sem mastigar.

quando há apoio (respiração, pausa, decisão, contato), a forma volta a elasticidade e o fogo reduz. o objetivo não é controlar o corpo; é acompanhar a reorganização do vivo até que o dentro possa voltar a digerir.


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