End’s

corpo que encerra com passagens

“O caminho é uma linha que se torna vida.”
Francesco Careri,
Walkscapes

No corpo encerro e acolho
o que ainda é esboço.

Na passagem, formarei
a borda possível
para seguir existindo.

Nas bordas me recolho
e me aproximo do núcleo:
síntese do vivido.

O gesto antes do gesto:
o contorno captando seu limite
e o risco de se expandir demais.

vou tateando
dobrando a forma por dentro
respirando o que nasce
enquanto deixo morrer
o que não passa mais

o risco de se expandir
antes das bordas
amadurecerem novas funções

me detenho

não por medo
mas para escutar
o que o espaço pede

quando a forma estala
ela me chama para perto
para não romper onde dói

há intervalos que protegem
há pausas que esculpem
há silêncios que sustentam

no recolhimento
descubro músculos de espera
ossos que sabem o tempo certo

eu cresço primeiro por dentro
até que o fora possa acompanhar

quando algo em mim termina
um vazio se abre
não é falta
é campo fértil

no intervalo
faço morada

respiro a porosidade
como quem testa paredes recém-erguidas
com a ponta dos dedos

a pele pergunta
onde apoiar a próxima linha
e eu respondo com passos curtos

não preciso saber o nome
para começar a sentir a forma

sou estreante
toda vez que recomeço

caminho
porque o chão me devolve forma

cada passo decide
o que continua
e o que fica pelo caminho

às vezes é só o pé
que sabe onde terminar

o corpo avisa
a cabeça acompanha depois

o movimento me cria
tanto quanto eu o crio

sou feito de passagens
e dos limites que eu aceito atravessar

no gesto que fecha
há um início escondido

eu sigo
com o que cabe
agora


subsolo clínico

Este texto nasce do meu cotidiano em que percebo que continuar é sempre acompanhado de sucessivos términos e recomeços. End’s foi escrito em meio a um jorro de tristeza, enquanto eu deixava uma cidade e atravessava outra — sem prévia teórica, apenas um corpo que sentia. Se possível fosse, eu não seria acompanhado de tudo o que já me faz pensamento e experiência sobre mim. Agora, quase duas semanas depois desse jorro, escrevo como quem dobra sobre si mesmo: procuro intenção nas memórias do percurso no Laboratório do Processo Formativo, e volto a perguntar a mim mesmo por que “end” — um basta que não é colapso, mas tentativa de proteger o que ainda está vivo.

Encerrar é dar forma ao limite para que a continuidade não se quebre.

Na clínica, esse momento costuma chegar travestido de tédio, irritação, repetição infinita, vontade de ir embora da terapia, do trabalho, de um vínculo. Já vivi isso tantas vezes: o corpo pedindo fim, e a mente ainda tentando sustentar o que não se sustenta mais. Hoje reconheço — há uma reorganização em curso. O vazio que se abre depois do fim não é buraco a ser tapado, mas terreno recém-exposto, campo fértil onde ainda não sei o nome do que vai brotar.

Escrevo em continuidade com o eixo que venho construindo no correspondente•PSi: em Respirar como corpo de passagem de ar, escrevi sobre o corpo como unidade viva de psi e matéria — o ar que entra, transforma e devolve, afirmando a vida em seu ciclo de começo e fim. End’s caminha nessa mesma direção: o fim como gesto orgânico de continuidade, onde morrer e recomeçar são expressões de um mesmo movimento pulsante.

Também ecoa a minha trajetória: anos de prática corporal, caminhadas que viraram método, casas que se converteram em consultório e consultórios que voltaram a ser casa. Foi assim que aprendi a reconhecer quando uma forma se esgota. End’s reescreve esse saber: o analista que conhece seus próprios “end’s” acompanha com menos medo os encerramentos de quem analisa.

Algumas chaves clínicas que emergem silenciosamente deste subsolo:

— acolher o desejo de encerrar como dado clínico legítimo, não como sintoma a ser apagado;
— investigar onde o corpo diz “basta”: no tônus, no fôlego, no sono, na pressa, no atraso;
— tratar o intervalo pós-fim como campo de pesquisa compartilhada, sem pressa de preencher com novos objetos ou relações;
— reconhecer que certos encerramentos são modos de preservar a continuidade — um ajuste de borda, não um abandono da vida.

Assim, End’s é um post que compõem minha biografia clínica em movimento. Ao leitor – ao caminhar pelos textos, pelos subsolos do que pensa em mim, encontrará um fios de uma rede de acontecimentos e dobras sobre a experiencia.


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2 comentários sobre “End’s

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