“Andar é um ato cognitivo e criativo, capaz de transformar, simbólica e fisicamente, tanto o espaço natural quanto o humano.” Francesco Careri
Dei o primeiro passo bem cedo. O sol me acordou pelas frestas da janela, e este texto começou a se desenhar nesse intervalo entre a fresta do dia e o caminho até a cozinha do café. No tempo em que a água ferve, o corpo desperta como quem tateia o próprio chão — cada respiração medindo a distância entre o dentro e o fora. Caminhar, então, é um modo de escutar. Não se trata apenas de ir adiante, mas de sentir o instante que antecede o passo, o breve silêncio em que o corpo decide continuar. Esse espaço de suspensão — quase invisível — é onde a clínica começa: quando o movimento hesita e o pensamento ganha corpo. O intervalo pensa.
O caminho nunca é uma linha reta. Na clínica peripatética, aprendo que cada desvio tem sua inteligência: um modo próprio de manter o corpo vivo, pensante, em contato com o imprevisível. Caminhar é aceitar as falhas de percurso como material de leitura — o chão irregular, o trânsito que obriga a mudar de calçada, o corpo que se distrai e inventa uma nova rota. A psique também se orienta assim: entre breves interrupções e retomadas. No consultório em movimento, escuto o que se afasta da coerência como quem recolhe rastros — um gesto de confiança no acaso. E, como no post Compostura do fim das ilusões, é no reerguer-se após o tropeço que algo se recompõe: o corpo volta a andar, mas o passo já não é o mesmo. Talvez o que chamamos de clínica seja justamente esse aprendizado de continuar andando, assumindo desvios — Clinâmen como método de cuidado.
“A vida é um processo evolutivo em que uma série de formas anatômicas estão continuamente se formando… Nossa estrutura corporal é a maneira como nos encarnamos no mundo.” Stanley Keleman
Na clínica, há momentos em que o silêncio pesa — mas não como ausência: é presença em estado bruto. A pausa torna-se um campo sensível onde o corpo se reorganiza antes que a mente o acompanhe. Aprendo, nas caminhadas, que parar não é desistir: é permitir que o ar volte a circular entre uma ideia e outra, entre um sentimento e seu eco. A pausa é um tipo de cuidado que não apressa o que ainda está germinando. Como diria Stanley Keleman, cada forma humana é uma sequência de pulsos que se expandem e se contraem — e é nessa alternância que se desenha o modo de existir. Às vezes, o que se transforma não é o discurso, mas o ritmo da respiração. O analista escuta o intervalo — esse lugar onde o dizer ainda não nasceu — e o analisando encontra ali o primeiro contorno de um gesto que poderá vir a ser palavra. Pausar, na clínica peripatética, é deixar que o próprio passo se torne escuta.
Há sons que parecem atravessar o corpo antes mesmo de chegarem aos ouvidos. O ruído de um ônibus arrancando, o chiado dos pássaros nos fios, conversas no ponto, crianças de férias em casa, a respiração das notícias — tudo isso compõe uma sinfonia cotidiana que a escuta clínica precisa aprender a decifrar. Na clínica peripatética, não há isolamento acústico: o mundo inteiro fala. Aprendo que o ruído não atrapalha; ele descreve a paisagem. Cada som traz consigo uma história microscópica — o tempo do corpo que passa, o trabalho invisível da cidade, as camadas emocionais do espaço. Escutar o fora é reconhecer que a clínica também caminha entre vozes dispersas. O ruído não é um inimigo da atenção, mas o modo como o mundo nos lembra que o silêncio nunca é completo. Dentro e fora se sobrepõem: os ruídos externos ressoam nos ruídos internos, e é nesse entrelaçamento que o inconsciente se faz audível — uma polifonia de mundos que se respondem em vibração.
“Corpo-vibrátil é a capacidade de todos os órgãos dos sentidos de deixar-se afetar pela alteridade… Ele indica que é todo o corpo que tem tal poder de vibração às forças do mundo.” Suely Rolnik
Enquanto caminho, percebo que o corpo desenha mapas invisíveis. Cada desvio, cada pausa, cada ruído absorvido pela pele compõe uma geografia afetiva, tão precisa quanto inacabada. Penso em Suely Rolnik, quando fala do corpo como território de passagem das forças do mundo — “um corpo vibrátil”, onde as intensidades deixam marcas, não conceitos. É esse corpo-cartógrafo que guia a clínica peripatética: ele sente antes de saber, mapeia antes de nomear. As linhas desse mapa não estão em papel, mas nos gestos, nos respiros, nos silêncios partilhados. São cartografias mínimas — feitas de pequenas percepções, fragmentos de encontros, o instante em que algo muda de temperatura dentro da conversa. O trabalho clínico, então, torna-se o ato de acompanhar essas variações — desenhar junto o território vivo que cada um se torna ao atravessar o próprio caminho.
O corpo inspira antes de responder. Há um instante em que o ar entra, hesita, e só então encontra o gesto que o devolve ao mundo. Nesse microtempo, quase invisível, a forma do corpo se reinventa. Caminhar ou escutar é o mesmo exercício: sustentar a pausa entre o impulso e o movimento, onde algo se reorganiza. Keleman diria que viver é moldar a própria anatomia emocional — uma prática diária de formar e deformar-se, de dar corpo ao que ainda é apenas sensação. Na clínica peripatética, o intervalo é esse laboratório silencioso: o corpo do analista e o do analisando respiram juntos, ensaiando novas posturas de estar. A escuta se torna muscular — o gesto de permanecer, mesmo quando nada acontece, até que o próximo passo se forme por dentro.
Volto a andar. O chão ainda úmido da manhã reflete o céu em fragmentos, como se cada poça guardasse um pedaço do pensamento. O corpo retoma o compasso, não mais para chegar, mas para se reconhecer nas curvas do caminho. Penso que cada tropeço foi uma forma de orientação, cada pausa uma medida do ar. Território vivo, feito à mão, compostura do fim das ilusões — as frases que me acompanharam até aqui voltam como pouso do percurso, lembrando que escrever é também como aprender a andar. A bússola e o tropeço não apontam para o norte, mas para dentro: é o corpo que indica quando virar, quando parar, quando respirar outra vez. Caminhar, afinal, é o modo mais antigo de pensar se entendo como parte do mundo.
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