Composteira do fim das ilusões ou depressão

o gesto do corpo que se recompõe depois de ter aceitado morrer um pouco

Como num encontro de corredor numa clínica compartilhada, permanecemos ali por sessenta minutos de relógio — tempo exato para um bocadinho de nós. O encontro trouxe a densidade de um tempo em que se composta anos de trabalho juntos e separados, influências de muitas outras pessoas e livros. Nesta semana, pinçamos a depressão — assunto cada vez mais frequente em nossos consultórios. Entre um lanche rápido, um atravessar atrasado e o desejo de sermos grupo clínico, tecemos com linha aparente retalhos de leitura, experiência e o desejo de seguirmos juntos.

As leituras de Nasio, Maria Rita Kehl e Christian Dunker voltavam a ecoar entre nós. Cada um parecia soprar outra camada para o mesmo tema: o fim das ilusões, a densidade que o corpo suporta antes de se recompor. Foi nesse zigue-zaguear que o termo composteira surgiu, imagem viva de parte dos ciclos. A composteira acolhe o que já cumpriu sua forma — restos, excessos, o que o corpo ou o tempo não souberam digerir — e devolve tudo em outro estado. É o território onde a decomposição se torna gesto de cuidado.

Ali, o apodrecimento não é ruína, mas promessa. O que desce e se desfaz volta em potência, adubando o invisível. Cada matéria que se entrega ao escuro participa da alquimia silenciosa da vida: morrer um pouco para poder continuar a nutrir.

Falávamos de depressão, mas o que se formava era outra coisa — uma escuta do corpo em transformação, o instante em que algo começa a dissolver-se e, ao mesmo tempo, a preparar o terreno para o que ainda não tem forma.

O trabalho clínico é sustentar esse intervalo: o instante em que ainda não é nome, mas já não é o mesmo. A escuta recolhe sinais, poro a poro. Há dias em que o corpo não quer nada — e é justamente aí que a clínica começa. O desejo de nada ainda é desejo de alguma coisa; a ausência de desejo, não. Essa é a paralisia silenciosa em que a vida se recolhe sem cessar totalmente, aguardando que alguém lhe devolva temperatura e gesto.

O corpo que deprime não faz mais nada para que isso aconteça. Não há projeto, nem fuga, nem plano de salvação. Há apenas um permanecer — gesto mudo de quem ainda cumpre as obrigações diárias, como se o corpo respirasse por conta própria, fazendo o mínimo para seguir existindo. Nesse limiar, a vida continua, mas sem verbo: apenas o fluxo automático de quem ainda está, mesmo sem saber por quê.

O trabalho clínico é o do jardineiro. Acompanhar e intensificar os ciclos de passagem, reconhecer o tempo das estações e a delicada fronteira entre o que morre e o que volta a viver. O jardineiro sabe que nada floresce sob pressa: ele permanece junto, sustentando o intervalo entre o fim e o recomeço. Assim também o analista — vigia o terreno, escuta o cheiro da mudança, confia no gesto que se refaz sem que ninguém o ordene. Compostura é isso: o modo do corpo reencontrar o seu próprio ritmo depois da poda.

Falamos, em outro encontro, do cheiro como sinal de transformação. Quando algo começa a feder, é porque a vida está voltando a agir por dentro — decompondo o velho para dar passagem ao novo. É um saber antigo, desses que o corpo reconhece antes da mente: o que fede está vivo. Na clínica, aprendo a suportar esse odor simbólico, a não perfumar o que ainda precisa apodrecer. Compostura é o nome que damos a esse saber silencioso — o gesto do corpo que se recompõe depois de ter aceitado morrer um pouco.

É nesse gesto — entre o fim e a recomposição — que encontro sustentação. O trabalho clínico e o da escrita se tocam: ambos pedem presença, intervalo e matéria. Continuo aprendendo com cada texto publicado em Correspondente PSI, onde sigo explorando o corpo que pensa e o pensamento que respira.


estrato clínico — compostura e transformação

Toda transformação exige, como pré-condição, o fim de um mundo.
Carl G. Jung

A depressão é a perda de uma ilusão.
J.-D. Nasio

Na depressão, a passagem do Kronos a Kairós fica prejudicada.
Maria Rita Kehl

A demanda é excesso de determinação do desejo; o sofrimento, excesso de determinação do mal-estar.
Christian Dunker

Essas epígrafes compõem uma borda conceitual para a compostura: o corpo que chega ao colapso de suas ilusões e passa a gerir lentamente a matéria comum do viver. Entre o fim e o recomeço, há sempre um intervalo vivo — lugar onde o corpo recobra temperatura e gesto.


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3 comentários sobre “Composteira do fim das ilusões ou depressão

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