Lavar as mãos e a roupa suja!

…durante a pandemia – conversas sobre o corpo, o cotidiano e o cuidar de si

Nossos comportamentos são cultivados com dedicação diária. “Lavar a roupa suja” é uma expressão comum entre nós, brasileiros, quando nos referimos a diálogos com atrito dentro de casa, nas relações próximas, com alguma convivência e intimidade.

Mas afinal — para que serve?
E para quem serve?


Quem lava as mãos — e como?

Cultivamos comportamentos todos os dias, com atenção e repetição. Quando atribuímos sentido a eles — como quem cultiva uma horta — estabelecemos uma relação vital: passamos a nos alimentar dela.

Nossas mãos assimilam habilidades, calos e ritmos próprios de fazer. Movimentos coreografam músculos, ideias e outras vidas.

Nos grandes centros urbanos, onde a vida vive sob ameaça, os comportamentos de alerta e desconfiança se expandem: cultivamos gestos de ataque e defesa, repulsa e hostilidade.

Leitura do corpo

mãos que hesitam na torneira,
ombros tensos antes do gesto,
respiração curta que apressa a palavra,
olhos que varrem o ambiente em busca de saída.


Coreografias cotidianas

Construímos coreografias — movimentações corporais — repetindo ações simples: tirar e pôr o casaco, tirar e pôr os sapatos, tirar e pôr máscaras (em todos os sentidos), lavar e sujar louças, lavar e estender roupas.

Um imenso faz e desfaz de coisas cotidianas vai desenhando no CORPO um modo de estar nos ambientes — anatomias de adaptação. O modo como as pessoas estão vivendo se lê nos corpos:

olhos arregalados de medo,
peitos encolhidos de sofrimento,
cabeças erguidas de otimismo,
pisadas firmes de confiança,
ou passos leves, “pisando em ovos” para não serem percebidas.

Somos corpos com uma capacidade interminável de modelar a si mesmos, criando e recriando modos de existir diante das demandas da convivência.

Leitura do corpo

nucas que aliviam quando a água corre,
lombos que se soltam ao dobrar panos,
punhos que encontram cadência no esfregar,
pés que, aos poucos, assentam no próprio chão.

(Sobre essa modelagem, virá outro post.)


Agora é importante voltar a atenção para a louça

A louça que está na mesa chegará à pia porque alguém fará esse deslocamento. Pode ser de modo arrastado, com o peso da obrigação; ou com a pressa de quem quer se livrar logo; ou com gestos curtos, “de mão quebrada”; ou com a elegância de quem monta uma instalação artística; ou com a leveza do equilibrista entre objetos frágeis; ou sem cuidado algum — esperando que alguém venha nos salvar da louça.

Se até aqui consegui atrair sua atenção para o COMO cuidamos da louça — ou de qualquer atividade simples do cotidiano —, é porque ficou clara a ideia de que dançamos em torno dos objetos, mobílias, paredes e pessoas à nossa volta.

Estabelecemos coreografias adaptativas e, assim, modelamos os corpos: mais ou menos alegres, presentes, contrariados, atentos ou indiferentes aos esforços domésticos.

Leitura do corpo

pratos que tilintam como pequenos sinos,
um vapor que desembaça lembranças,
dedos que encontram o ritmo da tarefa,
um silêncio que, enfim, organiza a cozinha por dentro.


Quem lava a roupa suja

“Lavar a roupa suja” — expressão nossa, bem brasileira — fala de diálogos com atrito, conversas que limpam o acúmulo dos dias.

Serve para limpar o que ficou sujo pelo uso, inevitável entre nós, humanos. As roupas são utilidades, mas também adereços das nossas coreografias. Usamos e trocamos roupas como preparação para cada nova atividade.

Lavar pode ser um gesto de preparo — ou apenas uma tarefa enfadonha, obrigatória, sem sentido. Mas não conseguimos viver pelados: é preciso vestir, usar e preparar novamente.

Podemos escolher como fazer isso: como o samurai que ritualiza o vestir como se fosse a última vez; como o cirurgião, asséptico e disciplinado; como o mergulhador, seguro mas desconfortável; como a bailarina, leve e precisa; ou como quem veste símbolos e marcas, ostentando status.

Leitura do corpo

tecidos que guardam o mapa da pele,
cheiros que contam o dia,
dobras que memorizam gestos,
e um corpo que aprende a vestir-se de presença.


Vestir-se de sentidos

Espero ter conquistado sua atenção para a importância do COMO “lavar a roupa suja”: vestir-se de sentidos pessoais, cuidar da presença nos encontros, preparar-se para a natureza dos ambientes — seus climas, relevos e culturas.

Lavar não apenas para se livrar do sujo ou contagioso, mas recuperar o gosto pelo cuidado, pelo capricho, pelo enfeitar-se — e perder o medo de sujar as mãos com a vida que se tem.


O tempo de cuidar

Sendo inevitável “lavar a roupa suja” — por ser desejável recomeçar sem o peso do dia anterior —, é preciso reservar tempo para isso.

Não delegar a outros o cuidado que diz respeito à nossa própria organização. Ressignificar esse tempo como privilégio: trabalhar sobre os objetos marcados por nossa vivência.

Investigar em nossos hábitos os modos de viver, consumir e acumular, o quanto criamos e gastamos energia, o quanto transformamos objetos em subjetividades.

Leitura do corpo

relógios que marcam mais do que horas,
agendas que respiram quando há pausa,
tarefas que, bem feitas, aliviam a testa,
e a casa que devolve o passo ao seu compasso.


Entre as quatro paredes

Não são apenas os hábitos cotidianos que modelam nossos corpos, nem apenas as disciplinas que organizam nossos comportamentos.

Entre quatro paredes, há sempre diálogos — no mínimo, duas pessoas conversando. E repito o que já escrevi antes: precisamos contar a alguém o que e como estamos vivendo.

É assim desde crianças: usamos a presença de outros para testar nossos comportamentos, avaliar o alcance dos gestos, das vozes, das emoções.

Lavar a roupa suja em casa é um privilégio de ensaiar coreografias acompanhados, de ampliar nossas habilidades de conviver e colaborar com o ambiente.

O diálogo na intimidade — sobre quem lava a louça ou ajuda nas lições de casa — é uma oportunidade riquíssima para entender como exercitamos poder, vulnerabilidade, liberdade e escuta.

É nesse espaço íntimo que se constroem os primeiros vínculos e valores que sustentam um modo de estar no mundo.

Leitura do corpo

vozes que sobem e descem como marés,
silêncios que pedem tradução,
passos que se encontram no corredor,
mãos que aprendem a dividir o peso das coisas.


O COMO como inteligência viva

Ao longo de todo este texto, o COMO tem aparecido como um fio condutor — e não por acaso. O “como” é uma forma de inteligência em desenvolvimento permanente.

É o modo pelo qual o corpo aprende, cria, combina, refaz e se refina. Não é apenas um meio de executar tarefas, mas uma forma de pensar em movimento, um tipo de sabedoria prática que traduz o que sentimos em gesto, e o que compreendemos em presença.

Pensar o como é pensar o ritmo das coisas: a respiração antes de agir, a pausa antes da palavra, a atenção antes da resposta.

Essa inteligência não se dá no isolamento da cabeça — ela se faz nas mãos, no corpo, nos vínculos, nos modos de estar. É uma inteligência relacional, feita de escuta e de adaptação. Cada ato, quando consciente do seu “como”, nos devolve ao centro da experiência — àquilo que é vivo, móvel e sempre inacabado.

Por isso, o COMO é também um exercício de liberdade: a capacidade de perceber-se fazendo e poder refazer. É aí que habitam o amadurecimento e a invenção.

Correspondente PSI — conversas sobre o corpo, o cotidiano e o cuidar de si.
Devagar, com presença.


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10 comentários sobre “Lavar as mãos e a roupa suja!

  1. Tivemos exatamente essa conversa e me fez prestar mais atenção aos processos da casa e na importância de fazer parte mesmo que não envolva MINHAS roupas sujas… o importante é fazer a engrenagem girar sem sobrecarregar uma delas e acabar por dar problema na máquina rs

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    1. Oi Renata,
      penso que será inevitável não levarmos nossas roupas sujas pra dentro da casa que estamos vivendo atualmente, mas talvez seja um esforço adulto ajudar lavar as roupas sujas que já estão de molho a muito tempo, acho que entendi seu atual trabalho cotidiano,

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  2. Para mim o diálogo de “acertos” em casa está se tornando cada dia mais difícil, a falta de paciência reina e os choques são cada vez mais frequentes, e cada vez mais eles trazem alguma mágoa ou exposição de alguma situação e comportamento que incomoda e antes não se falava sobre… mas a atmosfera fica meio pesada

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oi Nayara,
      fiquei acompanhado do seu comentário durante o almoço pois o li antes de ir para o fogão, então durante este período entre preparar e almoçar, pensei sobre os meus choques, riscos e exposição de mágoas antigas que estão expostas com o confinamento. Pensei nos riscos ainda maiores de uma população em situação de vulnerabilidade. Pensei sobre a importância da conversa com outras pessoas em diferentes formas de confinamento e as diferentes alternativas daqui pra frente. Passei a desejar muito a sobrevivência, a minha e a de tantas pessoas que vão contar “ COMO FOI POSSÍVEL! “
      e quem sabe, nunca mais se esqueça dos “acertos” necessários para se viver em rede, em grupo e em pequenos grupos, que não esqueçamos dos “acertos” necessários para deixarmos de produzir pobreza, vulnerabilidades e ignorância!
      Torcendo aqui! que você não só sobreviva, mas que também supere os comportamentos incômodos e depois possa contar pra todo mundo COMO FEZ! porque não tenho dúvida de tal como você tem um planeta inteiro vivendo uma atmosfera pesada!
      Agradeço seu comentário e participação no BLOG.

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  3. Como o corpo move, fragiliza, tensiona, sensibiliza no ambiente protegido e “lá fora”, dia após dia, na quarentena. E como isso tem coreografado e modelado a gente. Nos últimos 2 meses passei por alguns padrões de comportamento e experimento. As vezes doeu e inflamou, outras vezes cansou muito, mas as vezes foi pura fluidez.

    Passo a maior parte do tempo lavando louça, cozinhando, andando e varrendo. É de fato uma coreografia, ou uma orquestra feita de tarefas, engrenagens e pequenos prazeres. Todas com movimento. Tem o ritual do limão, da yoga. O ritual do café. Do almoço. Do cuidado com a cachorra. Das plantas. Da caminhadinha e do mergulho. Rolam altas conversas com a cachorra, minha amiga! Nas primeiras 2 a 3 semanas a louça estava sempre limpa e o chão sempre varrido. O corpo tava pilhado, teso, flexível, reflexivo. Zero inspiração com qualquer ideia de trabalho.

    Com o tempo, uma areinha, um copo sujo… e vai relaxando, roupa acumula… mensagens também… Vai ficando difícil focar no único trabalho que consegui. Acendo um cigarro, assisto e leio notícias por dias seguidos. O corpo sente. Não durmo. O dia fica difícil. Nesse momento, preciso ir pra cidade… A comida acabou. O corpo fecha, não respiro. As únicas tarefas possíveis no dia são as compras e tudo que envolve o cuidado pra não me contagiar. Daí, são dois dias de completo cansaço! Largado no sofá, sem força.

    Então começa um novo ciclo parecido de 2 semanas, até que tenha que sair para as compras de novo. E assim segue a luta. Mas muda uma coisinha aqui, outra ali. Por exemplo, o Yoga virou um experimento com dança. Senti a sutileza do movimento, de olhos fechados. Foi um repertório novo capaz de liberar dores antigas, mesmo que só por um tempinho curto. As dores sempre voltam, já que as dobraduras e desvios que as causam foram se instalando ao longo das décadas e não dão sinais de que irão embora, aos 53. Também não se resolvem as questões da macro política, e a certa culpa de se reconhecer privilegiado e não conseguir atuar no coletivo de forma efetiva neste momento.

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    1. Oi PAULO, que alegria encontrar com seu texto aqui, isso concretiza meu desejo de reunir pessoas que fazem arte da vida cotidiana, sofrem de paixão pelas coisas realmente belas, as delicadezas, os caprichos e singularidades. BEM VINDO

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  4. Durante o texto, organizei mentalmente as louças na pia… a ordem de organizá-las, limpar os restos de comida, empilhar, ensaboar, lavar, organizar para secar… O mesmo fiz com as roupas sujas. Separar por cor e tipo, colocar na máquina, enfiar sabão e vinagre, ligar. Bater para desembolar, descer o varal, estender, subir o varal… Tantas ações. Vejo um corpo ágil e muito acostumado com a intimidade desse fazer, momentos geralmente de introspecção e solidão.
    Esses foram meus COMO e minhas reflexões.
    Assim me despeço, até a próxima.

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    1. Oi paulamaria, bem vinda nessa conversa aberta, que pretensiosamente deseja reunir pessoas através das cartas – textos sem urgência – carregados do gosto pela escrita em primeira pessoa e pelos versos. Bem vinda e desejada sua chegada, acompanho seu BLOG – http://www.paulamaria.wordpress.com – e me alegra os vínculos possíveis com este manejo da escrita expressiva, tal como sinto q vc faz!
      Até já ,

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  5. Este isolamento tem rasgado véus e revelado verdades muitas vezes dolorosas. Amores que nunca foram sentidos, mas que somente foi possível descobrir o verdadeiro sentimento após vinte quatro horas de convivência. A grande verdade é que somos, não raras vezes, tolerados, por conveniência ou por não sermos capazes de distinguir sentimentos devido ao corre-corre do dia a dia.
    Também está nos fazendo perceber o quão difícil é nos conectarmos. Relembrar passados “esquecidos” pela correria cotidiana é, por vezes, doloroso. É quando descobrimos que a ferida ainda não cicatrizou.
    Tem nos mostrados que a convivência com pessoas é deveras saudável; que o simples caminhar no calçadão é revigorante; que não há nada de mais precioso, além da vida, que nossa liberdade.
    Tenho certeza que muitos sairão transformados dessa tensa e terrível experiência.
    Tensa e terrível porque descobrimos que não somos nada, absolutamente nada neste imenso universo. Que algo microscópico e sem vida é capaz de aniquilar toda humanidade. Que os planos, por mais bem elaborados, podem não sair como esperado ou nem acontecer…
    Eu, pelo menos, já tenho notado minha transformação.

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