Ficar em casa

Ficar em casa — fazendo o quê e como?

O início da conversa de hoje não pede uma defesa da casa — pede uma transição de olhar.

O trabalho nunca esteve realmente separado da produção de renda. Mesmo quando não aparece como salário, ele acontece nos preparos e recolhimentos do corpo do trabalhador: no modo de dormir, de comer, de conversar, de pensar, de recuperar forças. A casa sempre foi laboratório — onde se ensaiam decisões, se metabolizam conflitos, se produzem sentidos e se inventam formas de continuar. Investigar como vivemos não é resposta a uma urgência externa, mas um gesto contínuo de cuidado: não só o que fazemos, mas como fazemos — quais necessidades e vontades nos organizam corporalmente, quais micro-hábitos sustentam continuidade, quais rotinas nos apertam ou nos ampliam por dentro.

Quando digo “ficar em casa”, não falo de refúgio contra o mundo. Falo de ambiente-processador: uma espécie de laboratório cotidiano onde o corpo metaboliza o que chega, redistribui tensões, reorganiza bordas, aprende a durar. Às vezes, a casa é um cultivo. Às vezes, é um teste de temperatura do vínculo consigo.

Quais são os encontros inevitáveis do dia a dia?

Somos seres gregários: sujeitos vivos que se associam a outros para viver. É inevitável relacionar-se, formar comportamentos de sobrevivência, inventar modos de presença. E hoje isso acontece em camadas: no corpo-a-corpo e na tela, na cozinha e no áudio, no silêncio do quarto e nas mensagens que atravessam o dia.

A tecnologia digital pode afastar o corpo de certas texturas — mas também cria outras proximidades. Ela não substitui olfato, paladar, temperatura; porém pode produzir micro-vínculos, ritmos de escuta, estados de atenção, modos de companhia. O problema não é “o digital”. O problema é quando o campo vira apenas captura: atenção sugada, corpo comprimido, tempo sem respiro.

Leitura do corpo

mãos que tocam sem pressa,
olhos que buscam presença,
respiração que acompanha o ritmo da casa,
ouvidos que esperam o som do outro.

Quanto tempo estarei em redes sociais e dentro de casa?

O relógio marca sequências, mas a vida acontece em ritmos. Entre uma tarefa e outra, algo em mim precisa de pequenas passagens de estado — momentos em que a excitação muda de forma, o foco se desloca, o pulso encontra outro apoio. Quando essas passagens não acontecem, o viver encontra seus próprios desvios: acelera, endurece, se dispersa, ou se apaga por excesso de cansaço.

O dia não se divide em tempos — ele se dobra em camadas de duração. Há momentos de tela, de movimento, de pausa, de troca, de recolhimento, todos coexistindo no mesmo viver. Às vezes a tecnologia amplia o vínculo, às vezes captura. Às vezes o pulso pede ação, às vezes pede cultivo ou descanso. A organização ajuda, até o ponto em que começa a apertar. O desequilíbrio não nasce da presença dessas forças, mas quando uma delas ocupa espaço demais e impede as outras de respirarem.

Qual a importância do fazer cotidiano?

O que importa no fazer cotidiano não é ser simples ou complexo. É se o gesto cabe no corpo que o executa. Há dias em que um ato mínimo sustenta o mundo. Há dias em que só o excesso consegue mover o que está emperrado.

Fazer não é virtude. É arranjo de forma entre o que pulsa e o que o ambiente permite. Às vezes isso se organiza em gestos econômicos. Às vezes em movimentos largos, ruidosos, desordenados. O critério não é pureza nem clareza — é se aquilo cria continuidade.

Um hábito não regula porque é simples. Ele regula quando encontra o ritmo certo para aquele corpo. E esse ritmo muda.

Não se trata de fazer pouco nem muito. Trata-se de fazer do jeito que mantém o vivo em circulação.

E você, como você faz?

Compartilhe nos comentários: o que você tem descoberto no fazer cotidiano, no que te mantém presente, vivo, inventando novas maneiras de habitar a casa — o corpo e o tempo.


trilhas relacionadas

Nota de origem: escrevi a primeira versão deste texto durante o lockdown da pandemia de Covid-19. Eu estava fisicamente confinado, vivendo a casa como abrigo e limite, tentando sustentar continuidade num mundo suspenso. “Ficar em casa”, naquele momento, era experiência coletiva, risco, cuidado e reinvenção diária do corpo e do tempo. Volto a ele agora, em 2026, com outro chão sob os pés, para deixar que este texto atravesse a própria transição do meu percurso clínico e poético.


Descubra mais sobre correspondente•PSi

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

18 comentários sobre “Ficar em casa

  1. …. realmente o fazer simples não pode desqualificar o cultivo do cuidado….nesse tempo, esse é o primeiro tema , que me provocou sair do mergulho existência, que estou experimentando e vivendo com prazer singular.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Realmente nesse momento em casa estou percebendo mais algo já sabido, mas que nunca havia parado para pensar, como as trocas online vivem num relógio próprio onde nunca existe o cedo demais, tarde demais, horário de almoço ou descanso… como dito, é mesmo sem limites e voraz por atenção.
    E percebi como me rendia demais a esse tempo urgente e me fazia mal. Ainda não consegui me livrar totalmente pois trabalho online, mas estou sendo mais consciente com o uso desse meio para diminuir a ansiedade e aumentar o tempo em que estou realmente conectada e prestando atenção no mundo real e em mim mesma

    Curtido por 1 pessoa

  3. Podemos criar a cura aprendendo a ser gentis e a cuidar um do outro e de nós mesmos durante esse período… tempos de empatia e ressignificação.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Jéssica, agradeço seu comentário aqui no BLOG, tenho vontade que este espaço também possa distribuir gentilezas e cuidados! contente em te ver por aqui !

      Curtir

  4. Esse tempo de quarentena tem me dado mais tempo para fazer o que eu sinto mais prazer, porém ao mesmo tempo sinto que to perdendo todos os dias sem nenhuma responsabilidade pra fazer, já que estou sem trabalhar. Tempo de autoconhecimento, só queria não me sentir tão inutil

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Maria! já me senti assim também! Meio q feliz e culpado por estar aliviado. Parece que se dedicar unicamente a si próprio, não é justo. Mas depois aprendi que trabalho muito quando cuido da minha casa, de mim e de quem está perto! Daí passa sensação de sermos inúteis! rs

      Curtir

  5. Pra mim, este momento só reforçou o senso do que realmente tem importância e precisa ser incluído em minha vida e o que vai ficar de fora. Por outro lado, a agitação virtual tem ocupado tempo demais!

    Curtido por 1 pessoa

  6. Em alguns dias, percebo que passo menos tempo no virtual do que passava antes do confinamento. Em outros dias, fico quase online 24h, com diversas experimentações e usos.
    Sinto que a artesania está em viver o presente a cada dia, sendo que pouco tem importado o nome dos dias da semana, mas que cada um deles se difere pelos acontecimentos nesses micro mundos de espaço-tempo que chamamos de dias.
    O fazer simples está desde no café preto pela manhã, no arroz com feijão no almoço, na aquerela e desenhos sem qualidade técnica, nas conversas monotemáticas com amigas, nas poucas roupas que se repetem entre tantas… Por hora, é isso.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Paula, nessa artesania de viver o presente gostaria de te convidar para uma conversa semanal aqui no blog, você aceita ? Poderíamos conversar sobre isso que você chama de presença, o que acha? Sei da sua habilidade com processos diários de registrar e publicar suas investigações. Acredito muito neste fazer / desenhar diariamente a vida que queremos ter. Torcendo que aceite !

      Curtir

  7. Eu estava no início somente sobrevivendo, pois a pouca liberdade que havia reconquistado desde que me tornei mãe e dona de casa, se acabou, pois passei a ter o cuidado integral dos meus filhos pequenos, e de um parceiro que faz home-office, além de todas as tarefas domésticas e de integração no país (curso de alemão) que imigrei há 6 anos atrás.

    Fiquei louca nas primeiras semanas e depois tive um alívio emocional desta carga mental, pois recebi a oportunidade de entrar num projeto de trabalho com amigos, que me permitiu pensar em um projeto de trabalho e criar perspectiva profissional, para sair deste cenário único doméstico e maternal, ainda que minhas horas de sono tenham diminuído, uma vez que que tenho trabalhado neste projeto as noites e nas madrugadas. Tem sido um cansaço que traz esperança e boa energia!

    Pra mim pessoalmente o mundo da intensificação e conexão virtual, tem representado esperança, perspectiva, ainda que não sejam alcançadas as sensibilidades da nossa percepção. Percebo que essa nova forma de se relacionar virtualmente tem sido para algumas pessoas, a possibilidade de desenvolver resiliência e sobreviver ao confinamento, criando ferramentas pessoais que permitem mais que sobrevivência, VIDA! Talvez como podemos pensar em uma vida virtual onde sensibilidades sejam alcançadas?

    Acredito que a forma de se relacionar, de trabalhar, entre outras, irão mudar significativamente- uma transição da vida cotidiana tida como “normal”, onde a gente se relacionava a nível social muito fisicamente, para uma vida social restritiva e, portanto, mais virtual, seja no trabalho ou nas relações sociais. Os encontros inevitáveis são impossíveis de serem evitados, negados ou excluídos, mas os evitáveis, serão na minha opinião, reconstruídos de outras maneiras, com máscaras e álcool-gel como parte do nosso cotidiano diário, e tudo isso parece um pouco assustador e curioso, pois as minhas perguntas diárias tem sido: Quando voltaremos a normalidade? Devemos entender isso tudo como limitação, restrição ou oportunidade?

    Curtido por 1 pessoa

  8. Como trabalho no computador boa parte do tempo, tenho desativação de todo tipo de notificação que interrompa o que estou fazendo. Também mantenho o celular sempre no silencioso. Assim, tento escolher quando quero interação e não me deixar distrair pelas inúmeras “lives” e pop ups da quarentena. Nem sempre rola e as vezes a energia intensa da internet e toda sorte de notícias acaba me afetando negativamente.

    Outro experimento: participei de encontros online de prática de yoga, com pessoas conhecidas. Cada dia uma pessoa lidera. Nisso, experimentei a condução de uma narrativa de prática. Descobri que minha condução não é o yoga, mas um apanhado de experimentos corporais que coletei ao longo do tempo. Gostei de organizar a prática.

    Tento também reservar as manhãs para um mergulho e uma caminhada.

    Tô assuntando a ideia de criar uma janela de duas semanas sem trampo nenhum! E estimular um canal de escuta menos digital/cerebral e mais táctil/sensitivo pra diminuir a ansiedade do momento.

    Parabéns pelo blog!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Paulo, agradeço seu comentário!
      Pela primeira vez me autorizei pensar em estratégias para não ser tomado pela emergência do trabalho via internet, por exemplo – desligar as notificações – e me imaginar algumas semanas sem nenhuma conexão virtual e então me aprofundar na presença física nos ambientes e com os objetos concretos a minha volta.
      Pensei escrever em papel e lápis as futuras publicações que compartilho por aqui, usar os tais rascunhos que muitas vezes falo sobre a importância deles no processo de organização pessoal e processos formativos.
      Muito bom, espero que volte a comentar suas experiências por aqui. abraço

      Curtido por 1 pessoa

Deixe uma resposta para glaucosoto Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.