Caderno Peripatético

laboratório clínico da caminhada

A vida acontece enquanto se viaja. Encontram-se outros viajantes, filhos nascem, e a caça, a pesca e tantas outras atividades de subsistência seguem acontecendo.

Tim Ingold

o tropeço que vira método,
o acaso que vira bússola,
o ruído que vira dado,
o intervalo que vira nascente.

Caminho escrevendo porque o corpo pensa antes da frase. O caderno nasce na dobra do passo, nesse instante em que a cidade devolve perguntas sem forma e o gesto tenta respondê-las com hesitação. Não sigo linha reta; sigo o que me chama. Desvio porque algo acende. Tropeço porque algo pede rastro. O método é essa costura entre o que me atravessa e o que ainda não sei nomear.

Aqui registro o que o passo revela quando ainda não virou teoria: a pausa que sustenta, o ruído que pulsa, o encontro que dobra o caminho, a vida que continua enquanto caminho — como lembra Ingold, sem suspender nada do que importa. Cada anotação é uma tentativa de deixar traço sem congelar o percurso.

Este Caderno Peripatético é menos um manual e mais um chão em movimento. Reúne notas de campo, vinhetas clínicas e hipóteses em estado de caminhada — material que ainda respira, ainda testa bordas, ainda aceita o desvio como inteligência do desejo.

como este caderno caminha

Escrevo em deslocamento: no intervalo entre uma sessão e outra, no trajeto até o consultório, na volta para casa, nas dobras da cidade que se insinuam como pergunta clínica. A clínica aqui não cabe só numa sala; ela se espalha pelos becos, passarelas, escadas, praças, ruídos de trânsito, vozes atravessadas.

Cada texto que nasce neste caderno vem de uma experiência que ainda não se estabilizou em “conceito”. São registros de quando o corpo percebe primeiro, entende depois. O que aparece aqui pode um dia virar página-método, post público ou simplesmente se dissolver no caminho, deixando apenas uma mudança de ritmo.

protocolo em movimento

Não há protocolo rígido. Há quatro gestos que me orientam enquanto caminho:

  • Continuar — energia de forma: seguir quando há chão suficiente para sustentar o passo.
  • Hesitar — tempo de reorganização: deixar o corpo medir a borda antes de atravessar.
  • Desviar — inteligência do desejo: aceitar que o que chama também conduz o método.
  • Acaso — evento de transformação: acolher o encontro que muda o passo.

Sou corpo que pensa com o mundo. Esses quatro movimentos não são regras; são modos de colocar o corpo em relação com o que acontece.

vinhetas clínicas

Aqui se acumulam pequenas cenas: rastros de sessão, passos pela cidade, gestos que aparecem à margem do caminho e pedem escuta. Não são casos clínicos completos; são fragmentos que mostram o instante em que algo começa a se formar.

  • Topografia do intervalo — quando o entre se revela como nascente do gesto. (ler o post público)
  • A bússola do tropeço — quando o erro aparente reorganiza a direção da vida.
  • Acústica da hesitação — quando a pausa se mostra como forma de cuidado.

Outros nomes podem surgir, outras vinhetas podem se acrescentar. O caderno permanece aberto a novos desníveis, novas bordas, novas paisagens clínicas.

trilhas de companhia

Este caderno não caminha sozinho. Há livros, autores e práticas que sopram perguntas enquanto ando. São companhias de percurso, não autoridades de cátedra. Aqui registro quem já se tornou presença constante — e o que procuro em cada leitura, na clínica e nos posts públicos:

  • Francesco CareriWalkscapes: caminhadas como prática estética e crítica. Ajuda a sustentar a Clínica Peripatética e a pensar o caminhar como método em textos como Topografia do intervalo e Nossos modos nômades.
  • Tim Ingold — linhas, percursos, vida que acontece enquanto se caminha. Companheiro direto deste próprio Caderno Peripatético e das notas que tratam de rastro, fio e aprendizagem em movimento.
  • Stanley Keleman — forma e processo formativo: como o corpo se adensa, rarefaz, deforma e se reorganiza. Referência explícita em posts como Tensão e descarga e nas camadas clínicas de Respirar como corpo de passagem de ar.
  • Wilhelm Reich — excitação, pulsação e política do corpo. Entra como eixo de leitura em Tensão e descarga, em Flotilha de desejos e nas séries de subsolo clínico que tratam de tensão–descarga como organização do vivo.
  • Regina Favre & Allan Schore — corpo-relacional e neurociência da regulação afetiva. São aliados quando o caderno pensa o corpo como ecologia de vínculos, especialmente nos estratos que falam de ambiente interno, modulação de intensidade e campo relacional (por exemplo, em Respirar como corpo de passagem de ar e Excitação).
  • Benedictus de Spinoza — afeto como variação de potência. Referência de fundo para toda a trilha de afeto–potência–regulação, especialmente nos textos sobre pausa/intervalo e na série de excitação que atravessa o blog (como Intervalo e Excitação).
  • Gilles Deleuze & Félix Guattari — traçado nômade, desejo e cartografias. São companhia direta em Nossos modos nômades, atravessam Flotilha de desejos e reaparecem nas dobras de Sanfona de nós e dobras.
  • Suely Rolnik — cartografia sentimental e corpo como território de forças. Inspira o modo como o blog se organiza em trilhas e como a clínica se assume cartográfica em páginas como Território Vivo e em A cartografia (quando publicada/atualizada).
  • Maurice Merleau-Ponty — fenomenologia da percepção: ver com o corpo. Acompanha os textos em que caminhar vira gesto perceptivo, sustentando a ideia de corpo-perceptor em posts da Clínica Peripatética, como Topografia do intervalo e a série que culmina em “andança flutuante — aprender a ver com o corpo”.
  • C. G. Jung — função intuitiva, imagens e símbolos. Entra no modo diário de imagens, na leitura de sonhos (como em O que conduz) e na construção das vinhetas clínicas que privilegiam imagens-síntese em vez de descrições exaustivas.
  • Sándor Ferenczi — tato, elasticidade da técnica, confiança radical. Referência declarada em Flotilha de desejos e nas reflexões sobre presença analítica como “terra” para experiências intensas.
  • W. R. Bion — rêverie e função alfa: transformar bruto em pensável. Acompanha o trabalho com intuição clínica e digestão afetiva dos encontros, especialmente nas notas em que a escuta aparece como “corpo que sonha o paciente” antes de interpretar.
  • Ailton Krenak — vida não útil, futuro como invenção e não obrigação. Ecoa em estratos clínicos sobre confiança e vínculo, como em Confiar, e na crítica aos modos produtivistas de viver o corpo.
  • Mia Couto & Antonin Artaud — linguagem que respira entre corpo e mundo. Mia Couto inspira a cadência poética dos textos sobre intimidade e desejo; Artaud aparece quando o gesto pede mais intensidade e o corpo é tomado como território de forças, não categoria fechada.
  • Bruce Chatwin — caminhos, nomos, distribuição de espaços e justiça. Acompanha as reflexões sobre nomadismo, partilha de recursos e ética do caminhar, especialmente em diálogo com Nossos modos nômades e com as trilhas da Clínica Peripatética.
  • Eduardo Coutinho — cinema da escuta, entrevista como corpo a corpo. É presença de fundo em todo o projeto Cinecorpos e na forma como o blog acolhe voz, silêncio e hesitação; inspira a ética da escuta em posts como Flotilha de desejos e nas janelas em movimento.

Eles não aparecem aqui para serem explicados, mas para lembrar que minha caminhada também é feita de conversas silenciosas com outros corpos que pensaram o mundo em movimento. Novos nomes podem surgir; quando um autor deixar de ser apenas citação e se tornar companhia de percurso, este caderno registra — junto com a pergunta: “o que estou buscando nessa leitura agora?”.

notas metodológicas

Narrativa em constante atualização — um método que aceita o inacabado:

  • Fenomenologia corporal: sou corpo, não tenho um corpo; o que escrevo nasce dessa condição.
  • Cidade como co-terapeuta: cada rua, escada ou buraco no asfalto oferece uma forma de escuta.
  • Ruído como dado: buzinas, vozes, silêncios, cansaços — tudo entra na clínica como informação viva.
  • Registros em movimento: escrevo como quem respira; o texto acompanha o ritmo do passo.
  • Caminhar como método: a vida continua enquanto sigo — e sigo para continuar vivendo.

Este caderno não busca fechar nada. Ele serve para manter o método em caminhada, lembrando que cada desvio pode ser o início de uma nova forma de cuidado.