“Um jornalista interessado na vida das pessoas”
O trabalho com Castro teve início em agosto de 2016 e, desde então, me chama atenção a importância que ele atribui às histórias de vida contadas por quem as viveu — e o modo como transformou isso em dispositivo jornalístico, fazendo da escuta o centro de seu método para descrever acontecimentos históricos.
O que me interessou profundamente foi perceber como um jornalista pode se dedicar a ouvir histórias sem interpretá-las, sem impor conclusões ou verdades próprias.
Castro compõe sua escrita por meio da justaposição de diferentes personagens. Suas narrativas são atravessadas por experiências afetivas e também geopolíticas. Sem retirar ou acrescentar nada que altere o percurso de quem narra, ele permite que o leitor alcance fatos, perspectivas e contextos com certo gosto de literatura — mergulhamos em histórias contadas por quem viveu e pode dizê-las com todas as marcas do vivido, afirmando a realidade dos corpos como fruto de seu tempo, de seus ambientes e de suas singularidades.
Leitura do corpo
ouvidos que descansam antes de entender,
mãos que anotam sem querer concluir,
olhos que não desviam da dor do outro,
um corpo inteiro escutando devagar.
A partir da parceria profissional com Castro, encontrei um modo de escrever minhas próprias pesquisas, entrevistas, processos formativos e fragmentos do trabalho clínico enquanto psicólogo. Esse encontro me favoreceu: passei a escrever de maneira semelhante às tantas histórias que escuto diariamente — narrativas que dizem respeito não apenas ao indivíduo, mas às redes afetivas e temporais que o constituem. São registros de um tempo, de um lugar e de uma trama de relações; modos de construir pontes, alianças e estilos de viver, criar e amadurecer comportamentos.
Este blog segue essa mesma orientação: evitar julgamentos, sobreposições de poder ou afirmações de verdade, favorecendo a conexão entre histórias individuais para dizer como formamos corpo, pensamento e ação, privilegiando narrativas pessoais.
A entrevista com Castro
Glauco: Que tipo de jornalismo te interessa fazer?
Castro: Apesar de reconhecer a óbvia importância do hard news, nunca gostei de fazer o jornalismo em tempo real — pautas urgentes que amanhã já perderam relevância. O que me atrai são histórias atemporais, que não envelhecem com a semana. Desde cedo me interessam revistas científicas e reportagens que detalham a vida dos personagens. Vejo o jornalismo como ferramenta para contar histórias, e a forma literária vem da percepção de que reportar não é apenas informar: é também entreter, dar voz, inspirar, denunciar, contextualizar. Para isso, é preciso fugir das fórmulas engessadas — inclusive de textos curtos. Gosto das reportagens longas, para saborear.
Leitura do corpo
ombros relaxam quando o tempo desacelera,
palavras respiram mais fundo,
a voz encontra cadência no silêncio,
e o leitor abre espaço para o outro.
Glauco: O que há nesse prazer da leitura no jornalismo literário que falta ao hard news? Ao contar uma história individual, podemos tocar dimensões geopolíticas, épicas, atravessadas por outras vidas?
Castro: Acredito que sim. Existem muitas maneiras de representar realidades complexas — o jornalismo de dados, por exemplo, que trabalha com números e estatísticas e do qual gosto muito. Mas o que me atrai no jornalismo literário é a humanização que ele traz. É outra experiência ouvir o cotidiano de alguém, suas vontades, opiniões, medos. Acredito que nos comovemos mais quando conhecemos o rosto por trás da história. O hard news tende à distância: as tragédias se tornam normais, as vidas, anônimas. Quando um locutor diz que um grupo de refugiados foi impedido de entrar na Europa, raramente isso nos mobiliza. Mas se lemos sobre seus nomes, rostos e sonhos, a empatia desperta — e talvez o desejo de agir. Num tempo em que a informação precisa ser rápida e fácil, esse tipo de jornalismo resgata a lentidão da escuta e, com ela, a empatia. Ele contextualiza, amplia o olhar e revela que toda história singular contém camadas históricas, políticas e simbólicas.
Leitura do corpo
olhos que repousam sobre palavras longas,
músculos que desaprendem o gesto do scroll,
um leitor que sente o peso de cada voz.
Glauco: Quando se fala em “literário”, há espaço para ficção?
Castro: Por princípios éticos, não. O desafio do “tornar literário” é dar forma sem distorcer. Contar uma história real como quem narra — mas sem inventar. Ela pode ser simples; o papel do autor é torná-la envolvente, contextualizá-la e mostrar sua relevância. Qualquer fato pode ser assim narrado, desde que haja criatividade e respeito à verdade.
Glauco: Sugestões de leitura?
Castro: Os Sertões, de Euclides da Cunha, é um clássico. Outros nomes: Janet Malcolm, João do Rio, Fernando Morais, Gay Talese, Roberto Saviano, Svetlana Alexijevich. Mas meu favorito é A Sangue Frio, de Truman Capote — um marco do gênero.
Glauco: E o que essa sensibilidade traz para tua pesquisa em geografia?
Castro: A geografia, embora estude o mundo físico, é uma ciência humana. Ela trata das relações entre homem e Terra. Entender o mundo exige compreender como o natural molda o social e vice-versa. Nesse sentido, o jornalismo e a geografia se encontram na história oral: ouvir pessoas, recolher saberes que não estão escritos, aprender com as fontes vivas. É assim que a informação se torna experiência e o mapa ganha voz.
Leitura do corpo
mãos que gesticulam mapas invisíveis,
vozes que desenham fronteiras,
corpos que lembram de onde vieram
— e continuam contando o caminho.
Correspondente PSI — conversas sobre o corpo, o cotidiano e o cuidar de si.
Devagar, com presença.
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