Pele Crua de passagem, uma vigília Pagã

entre o chão e o peito um lugar de pertencimento.

Caminhar é aceitar que o mundo nos atravessa antes de compreendê-lo; linhas se encontram no corpo que permanece em movimento.
caderno de campo

Saúde é rio: só vive se continuar a correr.
janela poética · ed. especial

Entro na sexta com o coração um pouco maior do que o peito. O ar do começo da noite anterior tinha um frescor doce — perfume de bolo, copos gelados, o leve suor de quem esperou o dia nascer e terminar para chegar até aqui. Celebro o que já caminhei: o vivido que pulsa e não coube em nenhum plano, entre um acaso e outro fui protegido pelo exercício da paternidade, isso faz hoje dezenove anos.

Um violão encostado na cadeira aguarda apenas o toque firme de quem está autorizado cuidar. Quando as cordas falam, a vibração acende meus pelos antes do ouvido. Mais tarde ouviria com toda clareza:

Minha arte não é barulho, é carinho aos nossos ouvidos”.janela poética · ed. especial

O lugar para celebrar é a própria casa construída para nascer o filho, lugar que também pariu maternidades e paternidades por um longo tempo, e foi neste mesmo lugar de filhos e encontros pagãos que mais uma vez para mim se inicia fins e começos.

Na mesa quase já sem espaço se estendem papéis dobrados, fendas, portas e janelas de passagem — textura áspera de sonho em construção, papel pardo e coisa crua. Pressiono os vincos e vínculos na tentativa de alcançar o tempo em que tudo era só começo e era de todos – e agora não mais, os próximos passos ainda não estão visíveis.

vamos ampliar os seus suportes. O corpo entende antes da mente: o que seria caminhar pelo papel expandido?”
janela poética · ed. especial

Vozes chegam como correspondências quentes na palma da mão: sinto que algo aconteceu nesses rios/trincas/raízes. Um anúncio de que mais uma vez a força das aguas que não desejam retenção forçariam passagem, fissuras anunciaram transbordos. Um abraço sincero mais uma vez consolida uma despedida ao que não pode seguir o rumo das águas.

Saúde é rio: precisa manter o movimento. Rio parado seca e morre. Respiro mais fundo. Se paro, seco. Continuo.janela poética · ed. especial


Chego numa manhã que ainda é noite na casa em que dormem minhas origens. O escuro daqui é conhecido: cheiro de café que ainda não foi coado e lençóis com memória de infância. Sento, os pés no chão limpo confirmam a que pertenço. Vibra uma mensagem, uma única batida de coração: saúde é rio. Guardo para mais tarde — peso que orienta o passo.

Visto roupas cruas e brancas, para deixar o mundo passar por mim sem reter tristezas. O corpo veste o gesto de continuar no fluxo dos desejos. Ser passagem é uma escolha sem palavras.

Antes do fogo, encontro a vigília. Chego antes que meus olhos: ali encontro com mulheres cuja semelhança com as minhas origens faz pouso imediato. O rosto, o sorriso contido, o jeito de “estranhamente fazer o cabelo”  — tudo me fala uma língua conhecida. São amigas da mãe, filhos da mãe, mulheres e homens dando adeus a uma paternidade alegre –  “um Inventor de sonho”. Troco com elas uma delicadeza breve, como quem reconhece família em outra árvore. Um território de passagem se abre: pertencimento espelhado, sem precisar dizer o nome.

Saio para acompanhar quem se despede com amigos testemunhando, minha aliança amorosa com a filha da mãe alcança histórias, sobrinhas e netos de uma jovem paternidade silenciosa. A cidade recolhe as luzes para que o dia respire quieto. Portais e campos me observam com seriedade; meus ombros endireitam sem que eu peça. A terra abre um sulco e o cheiro do solo recém-virado sobe forte, invade o peito — a despedida tem aroma de tempo.

Ainda na encruzilhada com meio sol e meio sombra das árvores, outra correspondência me encontra: “o corpo tenta acompanhar o que se parte”. Minhas mãos, fechadas sem perceber, se abrem devagar. Talvez o luto comece assim: soltando o que ainda quer segurar. Minhas mãos abraçam homens que choram sozinhos, poetas e músicos acostumados com as imposições; “homens não choram“, engasgo até que o abraço faça uma ou duas palavras apenas; “grato e eu te escuto“. Um primeiro passo dado em direção aos adultos, meninos e paternidades que choram porque ouvem música também.

No que se repete, e os dias são feitos disso também – repetições – recebo uma frase de  precisão: “nada demais, mas preciso nomear o desencontro. O necessário costuma saber o caminho. Percebo a dobra da paternidade aparecendo entre o chão e a respiração.

isso vai me ocupar nos próximos dias: entender em mim um novo passo de paternidade.


O domingo amanhece com lucidez. O corpo pesa, mas o mundo está nítido como janela lavada. Uma exaustão borda os limites da comunicação. E aprendo: o cansaço pede delicadeza. Amarro o tênis com o vermelho do meu coração atendido — uma pulsação em ritmo dominical.

Entro no fluxo do metrô com fones no ouvido: a música que nasceu na sexta agora sustenta minha espinha. Muitas ressonâncias continuam vibrando. A plataforma vibra sob os pés, o vento do trem empurra memória pelos meus olhos. Subo à superfície e caminho pela avenida — o sol cintila no concreto como se o chão fosse papel fotográfico em revelação. O vento atravessa o fone — barulho de mar. A cidade inteira é página disponível: cada placa de rua, cada buzina, cada corpo rápido escreve uma linha nova em mim. Celebração ainda acesa, luto ainda colado ao pé.

A travessia me leva ao almoço de outro aniversário noutra casa que acolhe pelas beiradas: cheiros de comida, risadas que se encontram, um abraço que reconhece. Coloco a música no bolso; ela continua tocando dentro. A beleza sobrevivente me mantém andando.


Retorno ao quarto que guarda minhas raízes. Inaugurei um altar aqui comigo. A janela é o olho do meu altar — por ela o fogo conversa com a cidade. O pavio morno me cumprimenta quando toco. A mesa-tórax se recompõe: flor que caiu um pouco para a esquerda, nutriente esquecido, ferros de forjar flor ensinando que delicadeza também pode ser trabalho duro.

A fragilidade encontra um lugar de pouca franqueza — mas existe. Sinto surgir a primeira onda do altar; ela se chama por um nome que dispenso escrever e me atravessa com precisão de maré. O silêncio aqui não é fim: é respiração costurando tudo.

As correspondências do fim de semana pousam como objetos-lembrança: expandir suportes, rios que se ramificam, ondas graves, barulho de mar. Leio com as mãos, com o peito, com o pé bem apoiado. Memorar é dar movimento à memória.

Respiro. A memória continua no presente. Eu não conto o que vivi — eu vivo o que não deixa de contar. O altar olha pela janela. Eu acompanho a luz que insiste. O rio segue.

Trilha deste caminhar: ouvir álbum


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