O traçado nômade — um convite a caminhar, andar e atualizar-se corpo pensante
Abro este post como quem empurra um portão antigo — devagar, sentindo o peso da madeira.
Não é um recomeço: é o mesmo caminho de antes, só que agora noto outros cheiros, outras marés.
Ando e escrevo.
Escrevo porque ando.
O que muda hoje é o jeito de atravessar o blog: menos corredor reto, mais vielas, atalhos, pequenas praças onde a gente encosta o corpo pra respirar.
“o traçado nômade distribui os homens e as coisas num espaço aberto, indefinido, em permanente deslocamento.”
Leio e penso: talvez o blog precise aceitar essa abertura.
Deixar que cada texto seja um trecho de rua, uma dobra de mapa que eu revisito quando o passo pede.
Sem medo de “profanar”.
Que cada leitor encontre o seu chão.
Tenho caminhado com Walkscapes, por orientação de uma importante correspondente.
Entre páginas azuis e fotos que parecem respirar, encontro uma imagem que me serve de guia:
caminhar como instrumento que revela a paisagem — e revela a mim.
Eu, psicólogo, sigo testando a escuta em movimento:
o corpo como caderno, o vento como grifo.
A clínica acontece enquanto cruzo a cidade — uma conversa no semáforo, um cheiro de cera antiga numa casa, o silêncio entre duas esquinas.
Não é método fechado; é atenção.
Não é conceito frio; é tato, pele arrepiada, passo que muda o compasso.
“caminhar é o instrumento estético por meio do qual a paisagem se revela.
o percurso é a forma elementar de uma arte do espaço.”
Leio “arte do espaço” e traduzo pra mim: cuidado em movimento.
Quando caminho, algo em mim se realinha;
quando escrevo depois, tento não alisar demais.
Quero que o texto mantenha o ritmo da rua — um tropeço aqui, um respiro acolá.
“Feito à mão”, como quem costura um remendo sem esconder a linha.
Entre essas linhas, uma imagem me acompanha desde o início:
uma fotografia de pegadas — as minhas e as do meu filho — nas dunas dos Lençóis Maranhenses.
Ela não é lembrança, é origem.
Foi lá que percebi que o ato de andar podia se tornar fonte poética:
andar juntos por dias, dividir o silêncio e a luz, o vento que apagava nossos rastros e, ao mesmo tempo, escrevia outro tipo de permanência.
Eu levava a mochila; ele, a câmera.
Eu ouvia o som do vento; ele entrevistava
@frazao.trekking, gravava vozes, descobria uma língua que já era dele, poliglota de natureza.
A paisagem era pura travessia: lagoas para mergulhos rápidos, pausas de respiro, celebração do laço pai e filho — e da própria vida.
O cinema da mãe, cartógrafa por ofício e afeto, estava presente em cada enquadramento.
🎬 Oto Soto — canal Por destinos
Olhar pessoal / Mirada personal
Ali entendi que caminhar, filmar, escutar e escrever são gestos da mesma ordem:
modos de manter vivo o que se move.
Talvez por isso escrevo agora — tentando reter o vento que moveu aquelas dunas.
A respiração que ali aprendi não é urbana:
é do vento que redesenha montanhas de areia, do corpo que aceita perder o trilho e encontrar outro ritmo.
Hoje é isso: continuar o caminho, feito à mão, com o que o vento traz.
Se algo te tocar, me encontra na próxima esquina.
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Um comentário sobre “Nossos modos nômades”