Vivências na Sala 41 — Santos
“Ninguém sabe o que pode um corpo.”
— Baruch de Spinoza, Ética, Parte III (tradução em português).
Ver referência editorial (Autêntica, tradução Tomaz Tadeu)
Discussão acadêmica (PUC-Rio)
“A casa é o corpo.”
— Lygia Clark, sobre a obra A Casa é o Corpo.
Acervo oficial (PT-BR)
Projeto: Co-ocupação de casas na interconexão entre vida doméstica, práticas corporais, artísticas e formativas. Sem fins lucrativos e com multiplicação de recursos.
Quando entrei na sala — que, para mim, parecia um camarim — encontrei pelo chão roupas coloridas, bem cortadas, algumas bordadas, com texturas variadas. Senti como um convite e comecei, timidamente, a conhecer as diferenças ali dispostas para uma troca generosa. Sem restrições: todas podiam ser vestidas por quem quisesse e levadas pra casa.
Leitura do corpo:
O corpo aprende observando o outro — nas roupas trocadas, nas posturas imitadas. Cada tecido guarda uma história de toque.
Aquelas roupas, que um dia haviam vestido mulheres presentes, agora poderiam ter outro destino além do armário. Vestidos carregados de coreografias, receitas assertivas e convite à mudança.
Vesti-me de curiosidade pelas texturas, pelas histórias e pelas “cocorpagens” entre adultos e crianças. Ouvi relatos rápidos sobre uso e desapego. Os gestos eram leves — pouco espaço para narrativas extensas. O encontro já era exercício coletivo: mulheres fazendo com o corpo, eu sendo convidado a aprender na presença.
Era um encontro de trocas em que elas sabiam contar onde e como haviam vestido cada peça; a mim cabia observar, aprender — não repetir o velho hábito masculino de usar até o fim, nem temer variar. Experimentar coreografia, troca afetiva, no camarim habitado.
Leitura do corpo:
As roupas como mapas: vestir o outro, reinventar a si mesmo — cartografia tátil das relações.
Algumas conversas giravam sobre o desejo de fazer circular o que estava parado. Histórias que já não ocupavam o cotidiano. Memórias que, quando silenciadas, tornavam-se fardos ocultos.
As crianças brincavam entre as roupas, descobrindo o que precisavam. Com a borda alegre dos adultos, trocavam flores e saberes práticos para cuidar do corpo do outro. Assertivas, repetiam o jogo da imitação: aprender a vestir e deixar-se imitar, sem medo da frustração, reconhecendo-se como parte inteligente do todo.
Leitura do corpo:
Ombros que relaxam ao experimentar, olhos que riem em espelho, passos que inventam outro corpo dentro do mesmo.
Um sábado de brechó na Sala 41 foi um exercício sobre redes de intimidade e maturação. Os vínculos são corpos também: tecidos que se esticam e se adaptam. Observar como vestimos, como dançamos e coreografamos o corpo é prática de multiplicar alegria e eficiência com a vida.
Brincamos de vestir como o outro veste, de fazer o que o outro faz, para encontrar variações dentro de nós — e afirmar desejo de conexão, potência e colaboração criativa no ambiente.
Observar crianças, brincar junto dos desafios dos adultos, constrói bordas alegres para o desenvolvimento coletivo — reduzindo o esforço persecutório de “educar prontamente” e abrindo a autonomia para todas as idades.
Leitura do corpo:
Aprender é um estado: vestir e despir uns diante dos outros, permitir que o gesto traduza a palavra.
Experimentei algumas peças, vesti outras. Trouxe comigo duas roupas floridas e bem cortadas. Contei poucas histórias e fiquei com vontade de voltar. Aprendi a tirar as roupas velhas do armário diante de adultos e crianças. Tenho claro: este ritual une mulheres, um pacto de irmandade desde a infância. Sinto-me grato e acolhido do início ao próximo passo.
Correspondente PSI — conversas sobre o corpo, o cotidiano e o cuidar de si.
Devagar, com presença.
Leituras que me acompanham
- Suely Rolnik, Esferas da Insurreição — página da editora n-1 Edições.
Ver obra - Lygia Clark, A Casa é o Corpo — acervo oficial da Associação Cultural Lygia Clark.
Ver acervo ·
MoMA (guia/áudio) - Baruch de Spinoza, Ética — edição bilíngue Autêntica, tradução Tomaz Tadeu.
Ver obra ·
Artigo PUC-Rio - Gilles Deleuze & Félix Guattari, “Corpo sem Órgãos (CsO)” — introdução e contexto filosófico.
Ver verbete (Stanford)
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Capacidade afetiva de aprender e ensinar em todos os encontros…isso é realmente estar a olho nu!
Amei esse compartilhar de uma experiência tão rica, um lugar onde o único desfile é o adereço de ser quem você é!
Gratidão.
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fascinating! Famous Photographer’s Exhibition Breaks Attendance Records 2025 charming
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