Ela me escreve
Ela me escreve com saudade da língua materna e de ouvir o sotaque da sua terra natal.
Diz querer notícias do povo lá de casa — mas o que mais importa é poder conversar sobre o que lhe acontece no entre: entre lá e cá, entre os territórios.
Traduz, em silêncio, o que escuta em diferentes línguas.
Descreve com beleza os encaixes lógicos do que apanha na memória, na paisagem e na imaginação.
Diz que é assim que modela seu CORPO para estar em qualquer lugar e fazer presença: manual e artesanalmente, apanha, separa, desloca, empilha — e discretamente descarta o que já não merece continuar com ela.
Aproxima paisagens antigas de imagens novas, fazendo caprichosas combinações.
Às vezes, são apenas encaixes lógicos — como o trabalho de um programador decifrando códigos e frases.
E assim vai me inserindo numa conversa sobre sua vida cotidiana em um país estrangeiro.
Já não experimenta hostilidade, porque encontrou um alfabeto nômade — um laboratório de alquimias e práticas de ser ela em qualquer lugar.
Ela escuta gargantas roucas, macias, entupidas, estridentes, dizendo qualquer coisa.
Mas quando alguém realmente quer lhe dizer algo importante — seja lá em que língua for — é no tempo e no ritmo que se comunicam com eficiência.
É sobre o ritmo,
e é sobre o tempo,
que se trata —
e onde se tratam — os comportamentos.
Escutar texturas na voz de quem fala foi um caminho certo para ela se apaixonar, amar, odiar, e temer o encontro com algumas pessoas — antes mesmo de migrar para outro continente.
A ponto de não sabermos mais quem descobriu quem: se foi a tradutora de línguas estrangeiras ou a menina que escutava a casa, escondida dentro do armário, com uma lanterna nas mãos.
Lembrei do meu primeiro texto, aquele em que eu tentava escrever sobre as pessoas que me procuram para falar delas mesmas.
Tinha a mesma inquietação: a escuta de tudo e qualquer coisa — o barulho dos sapatos finos no chão de cimento queimado, o pé gorduroso de quem chegava de chinelo em dia de muito sol, o vazamento da pia do banheiro e o pessoal lá de casa tentando fazer silêncio.
Naquela época, eu já dividia a casa com o escritório de trabalho.
Ela me ensina coisas sobre a psiquê humana ao dizer que já não tem vontade de voltar para o lugar onde sua trajetória começou — onde ainda moram seus pais, e de onde tem saudade.
Parece contraditório, mas não é, quando se entende o CORPO criando variações sobre si.
Ela inventou diferentes métodos para transitar no tempo sem precisar ser igual e previsível como exigiam seus pais.
Mas o que deu mais trabalho foi se distanciar dos julgamentos moralistas sobre sua capacidade de se mover entre temas e se deixar excitar pelas novas coreografias que se encaixavam em seu corpo.
Atraída pela diferença, foi descartando aos poucos o hábito de pensar apenas dentro do armário onde tudo era certo ou errado — e vice-versa.
Experimentou profundas vertigens, até deixar de se assustar com a força do pensar e entender que a lógica não ignora as semelhanças e as misturas.
Atualmente, ela exercita diferentes práticas sobre si e sobre o tempo — atualizando, aproximando e combinando com as mãos.
Correspondente PSI — conversas sobre o corpo, o cotidiano e o cuidar de si.
Devagar, com presença.
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⛷️♥️
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Recordo dos seus amigos primeiros textos. Mais jovens e nem por isso menos sensíveis. Criar-se no corpo e no tempo é vida em estado sempre nascente.❤️
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Sim amiga! Eram jovens amigos, primeiros e não menos sensíveis. Agradeço por me lembrar disso. E nesta continuidade que você é água corrente tenho feito margens cada vez mais firmes pra conter abundância! ❤️
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