enredando histórias por correspondência
Estou ligada a tudo que vive, por correspondência secreta.
IMS – Clarice Lispector
Como psicólogo, reconheço que nossa profissão foi mantida e aperfeiçoada, em grande medida, por mulheres. Num país estruturalmente machista e escravagista, o avanço vem da insistência das mulheres. E vivemos hoje, novamente, um tempo de resistência.
Agora posso falar da foto.
Ela veio como uma correspondência entre tantas: minha amiga e colega Elaine, psicóloga, mãe de duas crianças, casada com um médico alemão e morando em Berlim, depois de anos no “Médicos sem Fronteiras”.
Em suas mensagens, narrava os desafios de ser mulher e mãe em duas culturas. Falava de trabalho, deslocamento, saúde mental e do desejo de pertencer a um lugar sem precisar abrir mão de outro.
Elaine me ensinou a olhar o futuro como continuidade — não linha reta. Desde sua partida para a África, em 1997, como brasileira e imigrante, ela vem vivendo nas fronteiras entre culturas. Nessas bordas, criar palavras, gestos e posturas se torna uma necessidade vital para viver com saúde — física e simbólica.
Falávamos sobre a sobreposição entre o ser profissional, mãe e mulher: tarefas que raramente cabem numa única agenda. Entre imagens, gravações e trocas de voz, víamos o quanto as tecnologias digitais — embora úteis — não alcançam todas as camadas de presença. Ainda hoje, são as mulheres que sustentam quase toda a gestão da vida doméstica e afetiva.
Durante dois anos, mantivemos uma correspondência quase diária. Algumas conversas foram gravadas, outras não. Enviamos fotos, trechos de textos, reflexões, silêncios. Foi um aprendizado de ver, ouvir, falar e escrever à distância — praticar presença por meio da tecnologia.
Nesse tempo, tivemos apenas dois encontros presenciais. Um deles, num parque público no Brasil, confirmou: nada substitui a afetação dos corpos presentes. Mas a distância, paradoxalmente, fortaleceu nossa capacidade de acompanhar e de estar junto.
Neste mês, o blog completa um ano de existência. Foram ensaios, rascunhos, publicações com parcerias pontuais e muitas aprendizagens — técnicas e poéticas. Nem tudo que criamos virou texto publicado, e por isso o subtítulo passou a ser “fragmentos de processos”: recortes de percursos maiores.
Assim, este blog segue como o que sempre foi — um enredo em movimento, uma rede viva de correspondências que se mantém aberta às novas conexões.
Quer continuar esta conversa?
Este blog nasceu de correspondências e ainda se sustenta nelas.
Deixe sua pergunta, comentário ou fragmento de vida.
Escrever é também se corresponder.
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Ainda nem li, mas já foi um prazer enorme receber o aviso de um novo post! ; )
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Olá Margarete,
Quanto mais o tempo passa tenho certo que vale a pena cultivar nas redes, após um ano que iniciei este blog com diferentes parcerias percebo o quanto escreve-lo me fez bem, me organizou pensamentos, conceitos e atualizou minha prática cotidiana.
Entendo sua alegria como mais uma motivação para continuar investindo em um modo de fazer pesquisa, um modo de publicar conhecimento, informação etc.
Aproveito sua mensagem para convida-la para uma entrevista e publica-la aqui no blog, gostaria de falar sobre tudo que te desafia onde você está vivendo.
um forte abraço
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