Crônica de Um Verão

Primeiros gestos de um corpo filmado

Em 1960, Jean Rouch e Edgar Morin empreenderam uma nova abordagem para o cinema documental. Saíram às ruas de Paris com uma câmera leve e perguntas simples, diretas:

“Como vai sua vida?”
“Como você gerencia isso?”

Essas questões abriram espaço para algo inédito — a fala viva, os gestos cotidianos, a espontaneidade. O filme Crônica de um Verão transformou o modo de olhar o real, aproximando a escuta do cinema da escuta da vida.

Interessa a este blog toda forma de registro que capte o movimento vivo das expressões, especialmente quando a presença de quem observa desaparece. No filme, Rouch e Morin apostam nessa invisibilidade e são, eles próprios, capturados pela beleza que surge quando a filmadora se dissolve no ambiente.

Leitura do corpo

olhares que se encontram sem ensaio,
mãos que procuram palavras no ar,
respirações que se ouvem mais do que se veem,
um silêncio que fala e grava o instante.

O corpo diante da câmera (ou quando ela desaparece)

Este ensaio marca o início de uma série de observações sobre o corpo encarnado e captado pela câmera — quando o gesto não é encenado, mas atravessado pelo real. Desde Crônica de um Verão, Rouch e Morin oferecem o que chamamos aqui de cinema de presença: o corpo não atua, ele se revela. É nesse instante que o cinema torna-se uma forma de escuta — e o olhar, uma prática clínica e cotidiana.

Fragmentos observáveis

Cada imagem desta galeria é um registro de presença — gestos não dirigidos, corpos que não performam papéis, mas se deixam ver em sua relação viva com o tempo. O exercício aqui não é analisar, e sim reaprender a ver: notar movimento e pausa, olhar e toque, o espaço entre as palavras.

Ficha técnica

  • NOME ORIGINAL: Chronique d’un été
  • PAÍS DE ORIGEM: França
  • ANO: 1961
  • DURAÇÃO: 85 min
  • GÊNERO: Documentário
  • DIREÇÃO: Edgar Morin, Jean Rouch
  • ROTEIRO: Edgar Morin, Jean Rouch
  • FOTOGRAFIA: Michel Brault, Raoul Coutard, Roger Morilliere, Jean-Jacques Tarbes
  • MONTAGEM: Néna Baratier, Françoise Collin, Jean Ravel
  • MÚSICA: Pierre Barbaud
  • ESTÚDIO: Argos Films
  • PRODUÇÃO: Anatole Dauman, Philippe Lifchitz
  • ELENCO: Angelo, Nadine Ballot, Régis Debray, Jacques, Landry, Marceline Loridan Ivens, Edgar Morin, Marilú Parolini, Jean Rouch, Jean-Pierre Sargent, Sophie

Cinecorpos: exercícios de observação

Este é o primeiro experimento de uma série chamada Cinecorpos, em que investigo a presença viva dos corpos filmados sem intenção de representar. O propósito é observar como o corpo habita tempo e espaço diante da câmera — e o que podemos aprender sobre percepção, afeto e verdade nas imagens não atuadas. Outros filmes virão: obras que captam a vida antes de ela se tornar personagem.


Correspondente PSI — conversas sobre o corpo, o cotidiano e o cuidar de si.
Devagar, com presença.


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